Content on this page requires a newer version of Adobe Flash Player.

Get Adobe Flash player

sábado, 20 de janeiro de 2018

FEITO NA AMERICA (American Made) EUA, 2017 – Direção Doug Liman – elenco: Tom Cruise, Domhnall Gleeson, Sarah Wright, Caleb Landry Jones, Lola Kirke, Jayma Mays,  Jesse Plemons, Marcus Hester, Alejandro Edda, Benito Martinez, E. Roger Mitchell, Maurìcio Mejía, Alberto Ospino, Tony Guerrero, Jayson Warner Smith, Jed Rees, William Mark McCullough, Frank Licari – 115 minutos

COM CERTEZA O PAPEL MAIS DESAFIADOR DE TODO O TRABALHO DO TOM CRUISE EM 35 ANOS DE CARREIRA 


Este filme devastador é um diálogo com a transição entre anos 1970 e 1980. Essa inserção de contexto do personagem que aos poucos se percebe num mundo maior do que pode controlar, como as grandes jornadas de crime, guia um olhar interessante que o cinema americano se especializou em transformar em filme de gênero. A sedução do crime continua um paraíso para as críticas ao consumo, e é justamente por isso que “Feito na América” surpreende. Neste retrato de uma história real, Tom Cruise vive Barry Seal, um piloto da Trans World Airlines, piloto de voos comerciais, pego por indiscrições (contrabando de pequenos produtos) pela CIA – personificada pelo onipresente e grande ator Domhnall Gleeson. No acordo, Seal ganha salário, avião próprio, mas precisa arriscar o pescoço em voos rasantes para tirar fotos de insurgentes na América Central, como só ele, piloto exímio que é, conseguiria. Esse, porém, era só o início da sua inacreditável jornada, que toma contornos que só não são surreais porque são verídicos. 


O filme é, ao mesmo tempo, um relato histórico e uma reflexão sobre a autofagia da ganância. Enquanto relato histórico, tudo começa em 1978, mas fica mais efervescente durante o governo Reagan (que começou em 1981). O serviço solicitado pela CIA é cada vez mais intenso, bem como as atividades paralelas exercidas por Seal. Em 1981, por exemplo, o piloto foi orientado a levar armas para os Contras da Nicarágua: era uma tentativa do governo dos EUA de derrubar o regime sandinista (mais precisamente, o governo da Frente Sandinista de Libertação Nacional), que, evidentemente, lhe era desinteressante. Em síntese, queriam aliados políticos na América Central, o que não poderia acontecer com uma Nicarágua socialista. No que se refere à reflexão sobre a autofagia da ganância, a responsabilidade é de Tom Cruise, que está dedicado e carismático como sempre, mas merece elogios por encarar um papel desafiador depois de muito tempo. “Feito na América” é novidade em seu currículo: Barry é o protagonista, mas está longe daquela figura heroica cuja conduta é o norte a ser seguido. O piloto não é o “bonzinho” de sempre. E o seu desempenho é impecável. É notório seu esforço para fazer um bom trabalho encarnando “o gringo que resolve todas as coisas”, seja com armas, drogas, dinheiro ou qualquer outro serviço clandestino. 


A sequência que mais chama a atenção no trailer do filme é Tom Cruise fugindo coberto de cocaína da cabeça aos pés. É completamente inesperado e bastante curioso ver o astro acostumado a personagens heroicos e insubordinados repletos de razão se colocar em tal posição aos 55 anos, mais de 35 de carreira. Cômico até. E infelizmente é exclusivamente com a finalidade de fazer rir que a cena está no filme. O personagem de Cruise transporta quilos e mais quilos de cocaína entre a Colômbia e os Estados Unidos, vive uma mentira sob intensa pressão, compra bicicletas de crianças cheio de pó na cara, mas não cheira. Entrega armas, mas não atira. É ameaçado diretamente de morte, mas não mata. Infringe inúmeras leis, mas na verdade é a vítima. Seus grandes pecados são enganar, ser ambicioso e confiar num agente da CIA. Seu maior problema se torna ter dinheiro demais. No fim das contas não vemos um Tom Cruise tão transgressor assim. É inegável, no entanto, o caráter arrojado do novo fruto da parceria do ator com o diretor Doug Liman. O filme não assume muitos riscos e se prende a algumas fórmulas comerciais, mas ainda assim acerta em investir no humor didático. Tom Cruise tem a oportunidade de representar o papel mais desafiador de sua carreira nos últimos anos. MUITO BOM E RECOMENDADÍSSIMO!! 


quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

VERÃO 1993 (Estiu 1993) Espanha, 2017 – Direção Carla Simón – elenco: Laia Artigas, Paula Robles, David Verdaguer, Bruna Cusí, Fermí Reixach, Montse Sanz, Isabel Rocatti, Berta Pipó, Etna Campillo, Paula Blanco, Quimet Pla – 97 minutos

UM FILME BELO QUE ENTRA NO ENIGMA DO UNIVERSO INFANTIL COM HABILIDADE E DELICADEZA


O primeiro filme da cineasta espanhola Carla Simón é delicado e emocionante, sobre infância, ausência e família, e tem causado sensação por onde passa, ao levar, por exemplo, os prêmios para “melhor primeiro filme” na Berlinale, na Alemanha, ou no Golden Biznaga em Málaga. O filme evoca um ano determinado e de início pode parecer uma pastoral por seu bucolismo. Mas nada tem de datado e muito menos de lírico. “Verão 1993”, trata de tema bem mais árduo – um difícil processo de adaptação, ainda que em aparência bastante favorável. É uma crônica da orfandade, da dureza da infância, de um processo de crescimento que foi acelerado drasticamente por um corte abrupto e também das etapas de assimilação de uma nova vida, tanto por parte de Frida quanto de seus novos guardiães e mesmo da pequena Ana, que deixa de ser filha única.


Um dos grandes acertos da diretora é manter o ponto de vista nas crianças. Frida é a protagonista e, portanto, estamos sempre com ela, enxergando aquela situação sob sua ótica. Quando vemos seus pais adotivos discutirem sobre ela, por exemplo, estamos cientes disso por ela estar escutando a conversa. Tudo que passa pelas nossas vistas foi observado pela expressiva atriz mirim Laia Artigas, nos colocando em seu lugar de forma ímpar. De modo muito singelo, Simón não passa a mão na cabeça da menina (ou dela mesma, já que estamos vendo uma dramatização de sua vida). Portanto, acompanhamos Frida sendo malcriada, invejosa e indecisa sobre o que realmente deseja em sua nova vida. Da mesma forma, a cineasta não desenha seus pais adotivos como pessoas detestáveis. Muito pelo contrário. O que Marga vive, por exemplo, é muito identificável. Uma mulher que é colocada em uma situação para a qual não estava preparada, tentando fazer o melhor possível para criar uma criança que se apresenta como um verdadeiro desafio. O fato de Esteve não ajudar muito no quesito disciplina a incomoda profundamente. Algo que terá de superar ou resolver junto do marido.


Indicado ao Oscar 2018 na categoria Melhor Filme Estrangeiro pela Espanha, “Verão 1993”, com elogiadas passagens no já citado Festival de Berlim e no Festival do Rio, é um filme que fala sobre a visão do luto pelos olhos de uma criança que não consegue se sentir aceita. Muito bem dirigido, o filme, com um ritmo bastante lento, navega no campo do descobrimento sobre as coisas no olhar detalhista da jovem protagonista. O maior trunfo de “Verão 1993” é a impressão de intimidade e realismo. A câmera consegue estar muito perto dos personagens e parecer ao mesmo tempo invisível, como se não interviesse naquele meio. A belíssima fotografia, com seus enquadramentos móveis e luzes naturais, faz o espectador se sentir como um novo membro da família, acompanhando atentivamente as metáforas mais simples. A atenção aos detalhes é primorosa: as cenas singelas de goteiras pingando, de couves colhidas na horta e do encontro com a joaninha funcionam para construir os personagens, explicar sua personalidade e seus conflitos internos. Uma obra-prima sensível e bela!! Obrigatório 

sábado, 13 de janeiro de 2018

BLADE RUNNER 2049 (Blade Runner 2049) EUA / Inglaterra / Canadá, 2017 – Direção Denis Villeneuve – elenco: Ryan Gosling, Harrison Ford, Jared Leto, Robin Wright, Ana de Armas, Dave Bautista, Wood Harris, Mark Arnold, David Dastmalchian, Tómas Lemarquis, Sylvia Hoeks, Edward James Olmos, Hiam Abbass, Mackenzie Davis, Vilma Szécsi, Lennie James, Sean Young – 164 minutos 
Visualmente deslumbrante, encontra beleza até mesmo na decadência de seu mundo

Este novo grande filme ultrapassa toda as expectativas, graças à inteligência com que o diretor apropria-se do projeto, com uma ousadia que desmente quem até agora o considerava somente um esteta. Ryan Gosling interpreta o agente K. Ele é um Blade Runner, oficial designado a encontrar e eliminar replicantes infratores, ou seja, seres artificiais que não possuem autorização para fazer ou viver da forma que estão. Logo na cena de abertura, o oficial irá confrontar o personagem do grandalhão Dave Bautista. Nesta única cena em que aparece, Bautista será essencial e dará o primeiro passo do grande enigma a ser desvendado ao longo das quase 3 horas de projeção. Esta é uma obra contemplativa, de ritmo deliberadamente lento, que não faz uso de nenhuma grande cena memorável de ação. “Blade Runner 2049” segue sendo um filme de questões, de mais perguntas do que respostas e de imersão, na qual nos pegaremos pensando dias após o término da exibição.
O filme já impacta em seus primeiros segundos com a densa trilha sonora assinada por Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch (ambos envolvidos em Dunkirk e Estrelas Além do Tempo), cheia de intensos sintetizadores, e com o brilhante e belíssimo trabalho do fotógrafo Roger Deakins (colaborador de Villeneuve em outros filmes). A atmosfera evocada é completamente idílica, psicodélica e envolvente; ora cheio de cores neon e uma paleta amarelada, ora com o cinza já característico do noir, o mundo cyberpunk apresentado pelo longa-metragem é de tirar o fôlego, com uma bela direção de arte que evoca tanto o vintage, em seus monitores de tubo, quanto o moderno, com suas cores e sons de sistema operacional eletrônico.


O maior acerto de “Blade Runner 2049” está na manutenção da ambientação que consagrou o filme dirigido por Ridley Scott - que retorna nesta sequência, agora apenas como produtor executivo. Os carros voadores, a chuva (ou neve) constante, os prédios imensos com poucas pessoas nas ruas, os gigantescos painéis em neon etc está tudo lá, apontando um futuro decadente onde o brilho vem apenas do que é falso - não por acaso, a única personagem que demonstra vivacidade é justamente uma acompanhante digital programada com tal finalidade. Trata-se de um mundo seco e sério, de preconceitos arraigados, onde as pessoas pagam para ter um vislumbre de felicidade sem se importar se este é verídico. A sensação, ou a necessidade, é mais importante.

Apesar do destaque dado em peças publicitárias a Jared Leto e Harrison Ford, a participação dos dois aqui é muito pontual, apesar de bastante efetiva. O Deckard de Ford demora a aparecer, mas sua presença é sentida durante toda a projeção. Quando ele finalmente surge em tela, o faz no momento certo, com o seu personagem colocado de forma orgânica dentro da narrativa e mantendo a mesma aura e carisma de 35 anos atrás, embora o antigo Blade Runner se mostre um homem mais amargurado, haja vista tudo que perdeu nas últimas décadas. Assim como o Tyrell de Joe Turkel em 1982, o Wallace de Leto considera-se um criador, dotado de uma aura quase divina. Nisso, diversos panteões são referenciados através do personagem. O Egito antigo é representado pelos opulentos cenários banhados em luz dourada nos quais Wallace surge. Tal referência egípcia reforça uma certa alegoria bíblica, Wallace inclusive cita textualmente outra passagem do Bom Livro para ilustrar um outro paralelo. Já os robôs que servem como olhos do criador remetem aos corvos de Odin na mitologia nórdica. Esteticamente falando, o filme é de encher os olhos de qualquer um. Com a já citada bela fotografia do premiado e experiente Roger Deakins, o resultado final é um filme delirante, estonteantemente belo e obrigatório.  


quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

DIÁRIO DE UM BANANA: CAINDO NA ESTRADA (Diary of a Wimpy Kid: The Long Haul) EUA, 2017 – Direção David Bowers – elenco: Jason Drucker, Alicia Silverstone, Tom Everett Scott, Charlie Wright, Owen Asztalos, Dylan Walters, Wyatt Walters, Chris Coppola, Joshua Hoover, Mira Silverman, Carlos Guerrero – 91 minutos

    ENQUANTO CRÔNICA DE UMA GERAÇÃO, O ROTEIRO SE SAI MUITO BEM  


Esse é o quarto filme da franquia, que sempre foi um sucesso absoluto de público. Principalmente por focar num grupo muito específico, a faixa etária dos pré-adolescentes, trabalhando bem os dilemas nessa fase da vida, utilizando um humor que está na barreira entre a inocência infantil e o escracho juvenil. Quando o êxito editorial chegou aos cinemas não foi diferente, e seu público foi ver as aventuras de Greg Heffley agora na tela grande, a franquia ganhou outros dois filmes e agora, com uma reformulação total do elenco, prova mais uma vez que o filme ainda tem o que render.
O personagem principal convence a família a ir para a festa de 90 anos de sua avó de carro, tudo porque Greg quer chegar numa convenção de gamers que acontece perto de lá, e assim conseguir um vídeo com um youtuber famoso e “limpar” a imagem ruim que um meme que viralizou na internet causou a ele. O roteiro do também diretor David Bowers dos dois filmes anteriores, mantém o formato humor pastelão com mensagem família, a diferença dessa obra é que é um road movie, que infelizmente usa todos os clichês possíveis desse formato, ainda assim, consegue ser envolvente e bem engraçado, claro que isso ganha força de acordo com sua idade, já que o filme é totalmente direcionado para o público infanto-juvenil.

Enquanto crônica de uma geração, o roteiro se sai muito bem. Mesmo com a direção hiperbólica, pautando qualquer gesto com um efeito sonoro engraçadinho, o diretor David Bowers sabe criar cenas assustadoras, como o pacote de salgadinhos caindo na jacuzzi e transformando toda a água num pântano alaranjado – algo muito mais potente do que os discursos da mãe contra junk food. Susan e Frank estão longe de serem pais perfeitos, demonstrando cansaço na criação dos filhos, o que transmite uma visão menos idealizada da paternidade. Neste núcleo, quem dá as cartas é a mãe autoritária, uma competente Alicia Silverstone. No elenco o novato Charlie Wright, atuando como um impagável e novo Rodrick, ajuda a compor com hilaridade as sequências da trama. Há bons momentos, como a divertida paródia de “Psicose” (1960), que convivem com cenas divertidas como o ataque dos pássaros (homenagem ao clássico de Alfred Hitchcock “Os Pássaros – 1963). Na tentativa de explorar tudo o que poderia acontecer de errado numa única viagem, o roteiro sai de situações hilárias e comete alguns excessos, mas os excessos fazem parte da comédia e do universo infantil e o filme acaba valendo a pena.


terça-feira, 9 de janeiro de 2018

AO CAIR DA NOITE (It Comes at Night) EUA, 2017 – Direção Trey Edward Shults – elenco: Joel Edgerton, Christopher Abbott, Kelvin Harrison Jr., Carmen Ejogo, Riley Keough, Griffin Robert Faulkner, David Pendleton, o cão Mikey (Stanley), Mick O’Rourke, Chase Joliet – 91 minutos

UM TERROR PSICOLÓGICO ABORDA O MEDO DO COMPORTAMENTO HUMANO


Toda a narrativa deste filme é estabelecida com a sutileza de cenas ambíguas. A alusão à peste bubônica, por exemplo, se faz presente em dois momentos muito sucintos: quando um grande quadro mostrando a Humanidade medieval combatendo caveiras é mostrado por alguns segundos e quando Travis desenha uma floresta ocupada por esqueletos. Unindo essas duas passagens às profissões de Paul e Will, os dois líderes do filme, é fácil compreender o caminho que o longa trilha. Paul, o protagonista, é um ex-professor de história ao passo que Will já exerceu diversos trabalhos de “construção”, como mecânico e assistente de obras; portanto, um conhece a história da Humanidade, e outro, supostamente, pode proteger a casa e elaborar armadilhas/bugigangas/sistemas de defesa. Mesmo com todo esse preparo, porém, os personagens permanecem vulneráveis diante de um inimigo invisível. Da mesma produtora do já cult “A Bruxa, “Ao Cair da Noite) combina texto, fotografia (escura e úmida), trilha (minimalista e discreta), todos os elementos a favor da dramaturgia. E o resultado é uma atmosfera de constante apreensão e medo rural.

A estratégia do diretor é simples e eficaz: sugerir ameaças que, ainda que invisíveis, se fazem presentes e reais. Para alcançar este resultado, Shults e o diretor de fotografia Drew Daniels mantêm a câmera sempre em movimento, investindo em zooms lentos que, fechando o quadro enquanto focam algum ponto do cenário ou da locação, levam o espectador quase a espremer os olhos ao tentar enxergar o que exatamente encontra-se escondido ali – como no instante, por exemplo, em que o cachorro da família late para algo na floresta. Enquanto isso, o ótimo design de produção concebe a casa que abriga aquelas pessoas como um conjunto de espaços escuros e claustrofóbicos que insinuam perigos ocultos nas sombras – e mesmo que a porta vermelha situada ao fim de um corredor seja óbvia em sua cor e simbolismo, isto não a torna menos eficiente como recurso narrativo. O grande protagonista dessa obra tensa é o adolescente Travis, filho de  Paul (Joel Edgerton). Interpretado por Kevin Harrison Jr., Travis é um rapaz introspectivo e solitário que, dividindo o quarto com seu cão, tem o hábito de se esconder no sótão para ouvir as conversas dos pais e, posteriormente, aquelas entre Will e Kim – e quando o vemos rir de uma piada particular do casal, sua solidão se torna ainda mais tocante. Além disso, como alguém atravessando o auge de seu despertar sexual, o jovem não demora a demonstrar certo interesse por Kim, o que resulta numa conversa entre os dois na cozinha, no meio da noite, durante a qual - mesmo nada de comprometedor sendo dito - ambos percebem o subtexto que move o diálogo, sendo admirável o trabalho dos dois intérpretes, já que Harrison evoca o desconforto excitado do garoto enquanto Keough permite que Kim pareça estar se divertindo internamente com a reação do outro.


“Ao Cair da Noite” fala muito mais sobre nossos medos internos e transborda tópicos como paranoia, experimentando a forma como lidamos e convivemos sob circunstâncias extremas. O mal pode existir e estar lá fora, mas permeia todos nós, se mostrando muito mais perigoso e urgente quando é deflagrado de dentro para fora. O filme revela-se, então, muito mais do que um suspense/horror que o marketing pode sugerir, mas uma análise da fragilidade humana diante de forças muito além de nosso controle, como as da natureza. É um verdadeiro estudo de nossa espécie, capaz de mostrar como cedemos ao nosso  lado primitivo a qualquer sinal de desordem.  

sábado, 6 de janeiro de 2018

120 BATIMENTOS POR MINUTO (120 Battements Par Minute) França, 2017 – Direção Robin Campillo – elenco: Nahuel Pérez Biscayart, Arnaud Valois, Adèle Haenel, Antoine Reinartz, Ariel Borenstein, Félix Maritaud, Aloïse Sauvage, Simon Bourgade, Médhi Touré, Simon Guélat, Catherine Vinatier, Théophile Ray, Saadia Bentaïeb, Jean-François Auguste, Yves Heck – 140 minutos

UM FILME QUE REVISITA DISCUSSÕES QUE HOJE VOLTAM A SEREM VISTAS COMO IMORAIS E PROVA COMO ALGUNS SETORES ESTÃO REGREDINDO


Este é um grande filme militante, de luta - mas também de amor -, sobre o começo da aids. O combate aos laboratórios, ao governo do socialista François Mittérrand, que se recusava a encarar a extensão da crise da saúde. “120 Batimentos Por Minuto” se passa na França, início dos anos 1990. O grupo ativista Act Up está intensificando seus esforços para que a sociedade reconheça a importância da prevenção e do tratamento em relação a AIDS, que mata cada vez mais há uma década. Recém-chegado, Nathan (Arnaud Valois em uma interpretação devastadora) logo fica impressionado com a dedicação de Sean (Nahuel Pérez Biscayart, brilhante performance) junto ao grupo, e os dois iniciam um relacionamento sorodiscordante, apesar do estado de saúde delicado de Sean.


Esse filme muito elogiado chegou ao Brasil (lançado nos cinemas na quinta-feira, dia 04) e provavelmente terá muito sucesso nas salas de arte. Não pelo fato de ser um filme francês que conta a história de um relacionamento homoafetivo, mas sim porque o filme traz a questão da militância LGBT que acontecia em Paris há 28 anos e que volta a ser polêmica em um país no qual a onda conservadora volta a tomar força. O diretor Robin Campillo segue no caminho para se tornar um dos mais importantes realizadores LGBT da atualidade com esse filme delicado. É importante perceber, no entanto, que assim como Gus van Sant ou Xavier Dolan, seu cinema está além da orientação sexual daqueles presentes em seus enredos, impondo-se com uma temática pertinente e relevante, que não pode ser ignorada, independente de quem se situa no lado de cá da tela grande. 


Neste mais recente longa, o diretor não perde tempo com distrações ou amenidades, construindo uma bela e emocionante relação amorosa, ao mesmo tempo em que ela está inserida numa passagem crítica da história recente da nossa sociedade. A justaposição de uma trama em meio a outra coloca em evidência não apenas as ligações inegáveis que existem entre ambas, mas também a urgência de se olhar para uma sem esquecer da outra. Somos somas de nossos gestos, e tanto Campillo quanto seus personagens sabem muito bem disso. Premiado no Festival de Cannes com o Grande Prêmio do Júri – chegou a levar o presidente do corpo de jurados de 2017, Pedro Almodóvar, às lágrimas – e com o troféu da crítica, além da Queer Palm como melhor filme de temática LGBT. A direção de Robin Campillo se destaca principalmente nos momentos em que se foge da narrativa e vemos os protagonistas dançando ou durante algum protesto, somos levados para um momento utópico, com todos felizes, se misturando às luzes que piscam, destacando a envolvente trilha sonora do longa e deixando claro que, apesar das diferenças, a luta é uma só. Essa união também é trabalhada nas cenas mais íntimas, com destaque para uma cena de sexo em que o casal conta como teve o primeiro contato com o HIV, vemos parte da história acontecendo, mas em momento algum saímos do cenário escuro em que os personagens se encontram. Um dos filmes mais importantes do ano!! Obrigatório e Emblemático!! 
         O PRIMEIRO GRANDE FILME DO ANO!!  DEVASTADOR E MAGNÍFICO!!



sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

VIVA: A VIDA É UMA FESTA (Coco) EUA, 2017 – Direção Lee Unkrich e Adrian Molina – com as vozes de Anthony Gonzalez, Gael García Bernal, Benjamin Bratt, Alanna Ubach, Renee Victor, Jaime Camil, Alfonso Arau, Herbert Siguenza, Gabriel Iglesias, Lombardo Boyar, Ana Ofelia Murguía, Natalia Cordova-Buckley, Selene Luna, Edward James Olmos, Sofía Espinosa – 105 minutos

                 UMA JORNADA DE AMADURECIMENTO EM DOIS MUNDOS 


O que chama mais atenção a esta nova animação, no entanto, é ser o primeiro filme da Disney totalmente no México e dedicado à cultura mexicana. Desde o início, o filme apresenta diversos elementos do país e seu povo como os mariachis, as telenovelas e a devoção ao Dia dos Mortos. “Viva – A Vida é Uma Festa” é apresentado através dos olhos do menino Miguel de forma perspicaz e inocente. Apesar da proibição musical, ele mantém sua paixão em um esconderijo onde toca sua viola quebrada e assiste às apresentações do seu grande ídolo já falecido Ernesto de la Cruz (Benjamin Bratt).

Existem filmes que conseguem fazer com que o espectador se sinta mais leve depois de assisti-los. “Viva – A Vida é uma Festa” é um deles: traz uma sensibilidade única para tratar de temas complexos como morte, de uma maneira que não subestima os espectadores e, ao mesmo tempo, não assusta os mais jovens que não têm tanta experiência em lidar com perdas. Isso dá ao filme uma linguagem tradicional. A jornada de Miguel é clássica - um garoto que precisa lutar pelo seu direito de cantar e no caminho aprende valiosas lições sobre perdão e legado -, o que se reflete no visual do filme. A qualidade técnica da animação, capaz de recriar texturas com profundidade, se sobressai a sua inventividade estética. 


As decisões tomadas são esperadas e seguras, seja no design dos personagens ou no contraste entre os tons terrosos do mundo dos vivos e o colorido do mundo dos mortos. É o que afasta o filme da assinatura de um estúdio conhecido pela inovação visual, subtexto complexo e profundidade psicológica de personagens variados, sejam brinquedos, formigas, peixes ou idosos rabugentos. É um dos filmes mais visualmente impressionantes da Pixar e talvez de todas as animações em computação gráfica já feitas. Você se sente no meio da multidão que povoa as diferentes regiões da cidade, entende como cada uma delas funciona e imagina que suas pessoas amadas que partiram estão se divertindo por lá, já que você se lembra delas com carinho. Extremamente alegre, divertido e deslumbrante!!