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quinta-feira, 17 de agosto de 2017

CINEMA NOVO – Brasil, 2016 – Direção Eryk Rocha – documentário – Depoimentos de Nelson Pereira dos Santos, Cacá Diegues, Joaquim Pedro de Andrade, Glauber Rocha, Leon Hirszman, Ruy Guerra – 90 minutos

                   O CINEMA NOVO A PARTIR DO PRÓPRIO CINEMA NOVO

Uma ótima oportunidade para se conhecer a história do Cinema Novo, movimento nacional e cultural cinematográfico que revolucionou toda uma geração de cineastas inovadores. O Cinema Novo foi um grande movimento cinematográfico brasileiro, influenciado pelo Neorrealismo Italiano e a Nouvelle Vague francesa, com reputação internacional. É um panorama exato de um cinema engajado, que confrontou o público com os espaços abertos, a luz natural e as imagens catárticas, urgentes e, ocasionalmente, messiânicas de um Brasil real e repleto de geografias contrastantes. O documentário de Eryk Rocha brilha ao mostrar o porquê do esvaziamento desse movimento, a partir do golpe militar. Chega a ser de uma ironia cínica o fato de, no mesmo ano em que o golpe tenha ocorrido, dois filmes nacionais terem sido selecionados para a mostra competitiva do Festival de Cannes – “Deus e o Diabo na Terra do Sol” e “Vidas Secas” -, outro para a Semana da Crítica (“Ganga Zumba”) e mais um para o Festival de Berlim (“Os Fuzis”). Foi ao mesmo tempo o ápice do movimento e também o início de seu esvaziamento, graças ao boicote interno promovido pelo governo de forma a separar (ou ao menos dificultar) o trabalho daquele grupo de cineastas tão unido e participativo.


Com as pontas amarradas em uma rima elegante que traz uma montagem com vários personagens de diversos filmes correndo em diversas cenas, este excelente documentário parece estar ressaltando para o espectador como o país e seu Cinema seguem disparados mesmo diante de todos os problemas. E com tantos momentos históricos na década de 1960, como o golpe e o miolo da revolta artística, os diretores se esforçaram em trazer arte e vida ao período. Como disse o crítico e cineasta Eric Rohmer “Todo filme é um documento de sua época”, o que casa perfeitamente bem com a motivação dos cineastas. Para aqueles que não estavam lá na época do Cinema Novo para ter a experiência por si próprios, "Cinema Novo" é o filme certo. Todos os registros sobre importantes capítulos da história do cinema poderiam ser evocativos como esse filme. Um belo documentário poético com edição caprichada e que não deixa de ser "um filme do cinema novo" brasileiro. O aspecto utópico, “militante” e “revolucionário” talvez colaborasse para que o povo não quisesse se ver de modo conflituado na tela, resultando mais no pessimismo.

O uso de cenas de filmes e entrevistas de época lhe traz uma riqueza impressionante, não apenas pelo aspecto técnico mas pela própria realidade retratada. Eryk Rocha resolveu fazer algo diferente, mostrar o que foi o Cinema Novo a partir do próprio Cinema Novo. A partir dos seus filmes constrói um relato denso e poético se valendo da memória cinematográfica de quem os assiste. Os trechos das obras, muito bem editadas nos enxutos 90 minutos de projeção, não são identificados com legendas e deixam o público livre para uma experiência quase sensorial e impactante. Montador e diretor, trabalhando em parceria, buscaram, mais do que uma organização temporal ou didática, dar um sentido à escolha de cenas entre 500 horas de material, incluindo os filmes dessa geração iluminada. Por todos estes motivos, “Cinema Novo” é um belo filme que não só explica o que foi o movimento, como lhe dá corpo, voz e coração.



domingo, 13 de agosto de 2017

MÃE SÓ HÁ UMA -Brasil, 2016 – Direção Anna Muylaert – elenco: Naomi Nero, Daniel Botelho, Dani Nefussi, Lais Dias, Matheus Nachtergaele, Luciana Paes, Helena Albergaria, Luciano Bortoluzzi, June Dantas, Renan Tenca, José Muylaert Abujamra, Antonio Haddad Aguerre, Berenice Haddad Guerre, Helena Bachur, Marcelo Muniz Bolognesi – 82 minutos

                 UM OLHAR VITAL SOBRE OS CONFUSOS LAÇOS FAMILIARES 

Em tempos de se falar tanto sobre equiparação de direitos de gênero e educação sexual nas escolas respeitando as diferenças, é com vibrante fulgor que a cineasta Anna Muylaert aproveita seu desde já personagem-cult, adolescente traumatizado num cabo-de-guerra emocional entre famílias, para transgredir socialmente com quaisquer amarras, autodeclarado com diversos protagonismos para além dos dois nomes próprios que ostenta. Veste-se com roupas tanto masculinas quanto femininas; assim como fica com garotas e garotos. Não quer mudar de sexo nem negar a si mesmo a chance de experimentar o mundo com suas próprias sensações, já que não pode confiar naquelas de que descendeu. Quando o filme parece assentado e resolvido, vem a diretora dizer não apenas que um ser humano pode ser múltiplo, mas que existem seres múltiplos também entre si embora de gerações próximas. E o elenco como um todo tem pitadas (ou mais que isso) de genialidade.

É não só o melhor filme de Anna Muylaert, como um dos melhores filmes brasileiros dos últimos anos. O roteiro jamais cai nas armadilhas que uma história melodramática como essa poderia proporcionar. A primeira grande sacada foi a de aproveitar apenas o mote da história real do jovem de Goiânia, que ganhou o noticiário na década de 1990 e ficou conhecido como “o caso Pedrinho”, rapaz que, aos 16 anos descobriu que a mãe que o criou o roubou da maternidade onde nasceu. Em “Mãe Só Há Uma”, Pierre descobre que na verdade se chama Felipe e que de agora em diante terá que viver com seus pais biológicos. Um impacto brutal na vida de um adolescente que não sabe se gosta de meninos ou de meninas, se deve se vestir como homem ou como mulher, e nem sabe se isso importa. Tudo soa muito verdadeiro na maneira como o filme observa essa fusão de gêneros e desejos dos jovens do século 21.


O espectador acompanha a trajetória de Pierre (Naomi Nero), que adora pintar as unhas, tocar música com os amigos e vive uma vida simples ao lado da mãe e da irmã. E os espectadores são brindados com um filme emocionante que fala muito além do amor de uma família. A diretora constrói o núcleo dramático do filme em uma série de cenas eficientes, capazes de apresentar todas as traumáticas reviravoltas de forma natural. Mas são as atuações que fazem dessa obra algo realmente inesquecível. É um filme provocativo que ousa na narrativa para atender a urgência em discutir tabus e estereótipos, principalmente no cenário atual. Anna Muylaert propõe um novo olhar sobre as configurações familiares e construções de identidades de gênero. O drama é tocante e energético, que transforma um tema potencialmente seco em um estudo caloroso de questões como genética, gênero e o verdadeiro significado de "lar". A cineasta e roteirista espia um momento complexo e delicado com carinho e sem julgamento moral. Ao redor do protagonista, orbitam personagens igualmente perplexos e perdidos diante de uma situação rara. UM DOS MELHORES FILMES DO ANO E UM DOS MAIS IMPORTANTES DA DÉCADA!!!!


quinta-feira, 10 de agosto de 2017

OS MENINOS QUE ENGANAVAM NAZISTAS (Un Sac de Billes) França / Canadá / República Tcheca, 2017 – Direção Christian Duguay – elenco: Dorian Le Clech, Batyste Fleurial, Patrick Bruel, Elsa Zylbersrein, Bernard Campan, Kev Adams, Christian Clavier, César Domboy, Ilian Bergala, Emile Berling, Jocelyne Desverchère, Coline Leclère, Holger Daemgen – 100 minutos

               DURANTE O PERÍODO DE OCUPAÇÃO NAZISTA NA FRANÇA...

Com um enredo encantador, é um filme sensível e modesto – prova disso é o plano aberto do trem à noite. Comovente em diversos momentos e com um enredo fascinante, é uma belíssima jornada de amadurecimento. Baseado no livro autobiográfico de Joseph Joffo lançado em 1973, “Os Meninos Que Enganavam Nazistas” (no original, Un Sac de Billes ou Um Saco de Bolinhas de Gude, brinquedo que assumirá o símbolo de resistência da criança judia) mostra a Segunda Guerra Mundial pelos olhos de dois irmãos que precisam ir de Paris até a Zona Livre da França, onde deveriam encontrar-se com seus pais e irmãos mais velhos. Dirigido por Christian Duguay, o filme traz claras referências à primeira adaptação desta história para o cinema, em 1975, mas em outros aspectos, flerta com a visão que o diretor Louis Malle trouxe para a França ocupada em “Adeus, Meninos” (1987), tendo, igualmente, a perspectiva de crianças judias sobre o conflito. O caráter de road movie bélico e a inevitável dualidade desse olhar infantil — mesmo diante do momento histórico há oportunas e excelentes cenas de humor — tornam os personagens muito cativantes e próximos de nós, de modo que é impossível não se apegar à história e não se emocionar quando os irmãos ou família sofrem e são separados mais outra vez.


Há dois eixos condutores no filme: de um lado, o afeto entre os dois irmãos e, de outro, a guerra e suas consequências. Jo e Maurice nutrem com pureza ímpar o amor fraterno: brincam e tiram sarro um do outro, mas também se protegem mutuamente no momento mais difícil de suas vidas. São crianças, agem como crianças, desconhecendo algumas expressões adultas e demonstrando bastante inocência (o caçula em especial) em diversos momentos – Jo, por exemplo, trata um desconhecido com simpatia, ignorando o período hostil. Entretanto, os dois precisam amadurecer rapidamente: é uma necessidade que a guerra trouxe. É justamente a proteção mútua que permite que amadureçam, algo que apenas uma narrativa tão rica poderia contar. Consciente, o diretor não tem a pretensão de inovar, apenas contenta-se em executar de maneira correta a transposição da saga dos Joffo para o cinema em forma de aventura infantil que substitui os perigos da natureza selvagem pelos alemães. Os nazistas, introduzidos desde o início como antagonistas, são em geral hostis – em oposição aos amigáveis fascistas italianos –, mas seus notórios atos cruéis mal chegam à tela. A opção é pela suavização e simplificadora personificação do mal num vilão caricato, oficial desconfiado e impiedoso interpretado por Holger Daemgen.
Algumas cenas são tensas e emocionantes. Quando o pai é obrigado a bater em Joseph para ele "esquecer" que é judeu, para protegê-lo, Patrick Bruel revela-se inesperadamente comovente como figura paterna. Com um roteiro bem amarrado que permite a fluidez narrativa, apesar de conter alguns momentos de superficialidade, é uma obra que prima por sua direção de arte, fotografia, montagem e figurino. O diretor sabe da força do material e não exagera no sentimentalismo – embora a trilha sonora seja quase onipresente e excessiva – e confia especialmente no olhar infantil diante das atrocidades. As lembranças são embaladas por perigosas aventuras e suspense, e por certa leveza por causa da atuação dos ótimos atores mirins. O peso da guerra e a caça aos judeus, porém, perseguem os protagonistas como um fantasma sempre à espreita. Com muita ternura e humor o registro da epopeia dos irmãos e de sua família por esse período conturbado faz uma bela reflexão sobre os horrores da guerra ao colocar a narrativa sob o olhar de uma criança. É um filme importante para termos outras visões sobre um dos momentos mais importantes da história do mundo.



terça-feira, 8 de agosto de 2017

DUNKIRK (Dunkirk) Inglaterra / EUA / França / Holanda, 2017 – Direção Christopher Nolan – elenco:  Fionn Whitehead, Tom Hardy, Mark Rylance, Harry Styles, Kenneth Branagh, Damien Bonnard, Aneurin Barnard, Jack Lowden, Lee Armstrong, Barry Keoghan, James Bloor, James D’Arcy, Tom Glynn-Carney, Tom Nolan, Michael Fox, Cillian Murphy,  Johnny Gibbon, Luke Thompson, Michel Biel, Constantin Balsan, Billy Howle, Mikey Collins, Dean Ridge, Bobby Lockwood, Will Attenborough, Adam Long, Matthew Marsh, Miranda Nolan, Bradley Hall, Brett Lorenzini, Jack Cutmore-Scott, Brian Vernel, Elliott Tittensor, Kevin Guthrie, Richard Sanderson, Charley Palmer Rothwell,  John Nolan, Bill Milner, Paul Riley Fox (não creditado), Michael Caine (voz da Rádio – não creditado), Jack Gover (não creditado), Christian Janner (não creditado), Davey Jones (não creditado), Jan-Michael Rosner (não creditado), Michiel van Ieperen – 106 minutos

              É O MAIS EXATO DE TODOS OS GRANDES FILMES DE GUERRA!!


“Dunkirk” é excelente e notável, entre outras coisas, em sua proposta visual. O diretor tem plena consciência dos ângulos, lentes e movimentos de câmera adequados para provocar a máxima experiência de tensão. O cenário da guerra é captado de maneira ao mesmo tempo grandiosa, pela amplitude das praias, mares e céus, e também intimista, por se focar em dramas humanos pontuais, silenciosos, envolvendo a vida de anônimos. As cenas de Tommy (Fionn Whitehead) correndo com uma maca pela praia, agarrando um barco em movimento ou se escondendo entre as vigas de um píer são muitíssimo bem filmadas e montadas. O projeto também impressiona pela ousadia narrativa e comercial. O diretor cria uma história dividida em três vertentes, cada uma com um protagonista: o garoto Tommy tentando fugir da praia, o patriota Dawson (Mark Rylance) indo voluntariamente à batalha, e o piloto Farrier (Tom Hardy) tentando destruir aviões inimigos. A trama demora em conectá-los, e não revela imediatamente a ambiciosa relação de temporalidade entre os três segmentos. O resultado é um projeto sem protagonismo definido, com poucos atores famosos, em trajetória não linear, e que não perde tempo explicando particularidades da guerra.

Um dos grandes trunfos de “Dunkirk” está em seu diretor e roteirista não permitir que o espectador fique relaxado a qualquer momento, colocando-os lado-a-lado com os soldados aflitos pela possibilidade de jamais serem resgatados. Enquanto um raio de esperança brilha para aqueles que esperam a evacuação, outra fonte de tensão é inserida no arco narrativo do piloto, por exemplo, criando, dessa forma, inúmeras quebras de expectativas que faz a plateia sentir tão desolada quanto aqueles homens na praia, à mercê da sorte de não serem atingidos pelos constantes bombardeios de aviões alemães. O filme é efetivamente um dos maiores do gênero já rodados, cuja escala grandiosa do episódio histórico que emoldura a trama não asfixia as tragédias individuais de seus personagens. Ao contrário: o espetacular e o íntimo combinam-se na tela com harmonia e eloquência raras. As atuações são sólidas e poderosas, com atenção aos detalhes e qualidade técnica inegável. Está sendo aclamado como um dos melhores filmes do diretor e do ano, graças à forma como retrata o heroísmo, mostrado com pequenos atos aparentemente comuns. Como um todo, "Dunkirk" gera comparações com as obras de Stanley Kubrick e Steven Spielberg, apesar de não possuir uma visão tão clara e consciente da terrível aleatoriedade da guerra como "O Resgate do Soldado Ryan". Há uma excelência na parte técnica, nos excelentes e precisos efeitos visuais, na lindíssima fotografia, na arrebatadora direção de arte e nos figurinos impecáveis. Com certeza, este espetáculo ganha por ser diferente. Por ser um filme de guerra único. Por ser muito mais uma experiência do que uma história propriamente.

Christopher Nolan cria para o espectador a sensação de estar dentro dos acontecimentos, como se fosse um dos soldados acuados na praia, um dos pilotos dos caças, um dos passageiros dos barcos de salvamento. Ele coloca o espectador o mais perto possível da ação, para sentir a necessidade de sobrevivência. De certo modo, é um olhar frio e distante sobre uma operação militar, mas a urgência das cenas humaniza os personagens, mesmo que a gente não saiba o nome deles. O “espírito de Dunquerque” passou a significar a resistência a qualquer custo e os elos de aço de uma comunidade solidária. No individualismo acirrado de nossos dias, esses valores são virtualmente impensáveis. A crítica internacional colocou o cineasta no mesmo patamar de grandes mestres da Sétima Arte, como Stanley Kubrick, Martin Scorsese, Terrence Malick, Spike Lee, Steven Spielberg etc. E essa empolgação toda porque é o filme em que mais se nota o amadurecimento de Christopher Nolan. Impressionante e visceral em termos de impacto físico, o filme tem sequências marcantes que se aproximam dos laureados "O Resgate do Soldado Ryan" (1998), de Steven Spielberg e "Além da Linha Vermelha" (1998) de Terrence Malick. A beleza de “Dunkirk”, não está em contemplar o épico e sim a fragilidade humana, seja física ou emocional, fragilidade essa que já deveria ser o suficiente para evitar qualquer um desses conflitos.


domingo, 6 de agosto de 2017


          O FILME DE GUERRA MAIS INTENSO E IMERSIVO DA HISTÓRIA


"Dunkirk" é um "tour de force" de arte e técnica cinematográfica, com uma grandeza ímpar e pouco vista no cinema. Baseado num evento histórico que consistiu na evacuação de soldados britânicos e franceses de Dunquerque, região no norte da França, conhecida como a Operação Dínamo, o filme é um eletrizante retrato de um dos mais cruciais momentos da Segunda Guerra Mundial. O diretor coloca uma lupa nesse evento da guerra e trabalha com uma verdade pouco vista nos filmes épicos. Normalmente vemos os filmes de guerra com personagens fortes, heroicos e com uma profundidade dramática muito grande, em vista daquele terror inacreditável que estão vivendo. Em “Dunkirk”, isso é completamente diferente, pois não apenas os personagens são totalmente anônimos, mas também mostra uma face da peleja muito cruel – o desespero. Os soldados da cidade de Dunquerque estavam sendo encurralados pelos inimigos, e as tropas europeias estavam tentando evacuar o local, porém as armadas germânicas estavam implacáveis, bombardeando os locais em que os soldados estavam concentrados. Há três pontos de vista diferentes. Um aviador (Tom Hardy), um civil que é convocado para resgatar os soldados daquele local e um soldado que busca voltar prá casa, após ter escapado do cerco da cidade. Nessas três variantes, o espectador acompanha um pouco do terror e das consequências que a guerra pode trazer. A maneira singular que o diretor faz a transição entre os mesmos acontecimentos, dos diferentes pontos de vista (terra, céu e mar), parece trazer o sentimento diferenciado que cada um mostra. 


Num filme com essa proporção, os efeitos sonoros trazem uma imersão bem importante para o espectador, mas o que se vê supera tudo o que já se viu nesse quesito. Em ambientes fechados, em ambientes abertos, os estampidos das armas de fogo são impressionantes e fazem crer que aquilo está realmente acontecendo. Há um medo coletivo, mas ele é solitário. A luta é entre países, mas a luta interna é muito mais cruel. Alguns filmes do gênero mostram o lado cruel e sombrio da guerra, mas poucos trabalham a vontade de continuar respirando, como “Dunkirk”. O filme mostra o lado visceral e a linha tênue entre covardia e desespero. O heroísmo não tem lugar, quando a sua vida está na mesa e muitas vezes, acabamos agindo por puro instinto, deixando de lado o certo e o errado. A lupa que o diretor coloca na vida das três pessoas, revela outro sentimento interessante – o ser humano mostra o seu melhor, nos momentos de maior dificuldade. Há autoralidade fílmica, pois como sempre há em cena os dois elementos que guiam a dramaturgia cinematográfica do diretor Christopher Nolan: culpa e necessidade de controle. Há uma mistura covalente de ambos no combustível afetivo que alimenta a fúria visual de "Dunkirk". Tenso, emocionante, profundamente envolvente e inesquecível, pode ser classificado entre os melhores filmes de guerra da década.

O diretor sempre está em busca de inovar a linguagem, ao mesmo tempo em que estimula o debate sobre questões cruciais. Em “Dunkirk”, Christopher Nolan diz claramente que ainda acredita na humanidade. É curioso, no entanto, ver uma produção de guerra “limpa”, sem sangue em demasia ou mutilações, obter forte impacto. Parte disso se deve à capacidade do roteiro de botar o espectador ali, junto, nesse episódio singular da humanidade, que poderia ter outro destino. É um filme poderoso e maravilhosamente criado com uma história a contar, evitando pornografia de guerra em favor de algo desolado e apocalíptico. Talvez o melhor filme de Nolan até agora. Pode-se dizer que  é uma obra-prima impressionista. É um filme de guerra como poucos, um dos que pode ser pintado sobre uma tela grande e expansiva, mas que transmite o todo através de momentos isolados, brilhantemente realizados e muitas vezes privados. A história é econômica e segura. Não existe um único momento desperdiçado, nem um detalhe desnecessário. Tudo é empolgante e necessário para a narrativa. Depois de “Amnésia” (2000); “Batman – O Cavaleiro das Trevas” (2008) e “A Origem” (2010) , o diretor Christopher Nolan continua surpreendendo com um cinema de fantasia. "Dunkirk", sem sombra de dúvida, é o melhor trabalho do cineasta. Sai a ficção e entra um espetáculo audiovisual realista como raras vezes o cinema produziu nos últimos anos. Espetacular e belo !!


sábado, 5 de agosto de 2017

A VIGILANTE DO AMANHÃ (Ghost in the Shell) EUA, 2017 – Direção Rupert Sanders – elenco: Scarlett Johansson, Pilou Asbaek, Takeshi Kitano, Juliette Binoche, Michael Pitt, Chin Han, Danusia Samal, Lasarus Ratuere, Yutaka Izumihara, Tawanda Manyimo, Peter Ferdinando, Anamaria Marinca, Daniel Henshall, Mana Hira Davis, Erroll Andersson, Kaori Yamamoto, Andrew Morris, Chris Obi, Bowie Chan Wing Wai – 107 minutos
 
                      O FILME É UM ÉDIPO REI NUMA TEBAS CIBERNÉTICA 


Honrando espetacularmente o espírito e a estética das adaptações animadas de Mamoru Oshii sem cair em uma repetição vazia, “A Vigilante do Amanhã” é um entretenimento inteligente. Apesar de algumas falhas e desapontamentos, o simples fato dessa adaptação existir já é uma prova de coragem da Paramount, que arriscou e conseguiu entregar um bom filme, que funciona melhor quando não comparado com a obra original. O filme é um Édipo Rei numa Tebas cibernética, de direção de arte exuberante. Major Scarlett é o Édipo. A Édipo. A esfinge foi derrotada antes de ela ser criada: a esfinge é a tecnologia que amplia os dotes físicos de mulheres e homens. Uma ficção científica vibrante, visualmente arrebatadora, permeada por questões metafísicas e estrelada por uma irresistível diva hollywoodiana. Scarlett Johansson reina como a Major. O grande mérito, sem dúvida, é o resultado visual da obra que parece ter sido tirado de um mangá pelo fiel esmero da equipe de direção de arte e efeitos visuais e logicamente também de figurinos.


"A Vigilante do Amanhã" não subestima a audiência, deixando alguns temas para interpretação após a exibição - assim como o anime de 1995. A procura pela identidade, a questão de gênero e o lugar de um ser como Major naquele mundo são discussões que o filme não responde, apenas apresenta. Há que se destacar a primorosa direção de arte, que é um mérito de um diretor praticamente desconhecido, o britânico Rupert Sanders. Nas imagens e nos sons, é um filme que utiliza de elementos de um passado próximo para constituir seu futuro, algo longe de ser inédito, mas muito interessante. Coincidência ou não, Scarlett Johansson interpretou nos últimos tempos vários personagens cuja identidade e essência humanas estão em questão. Agora, neste filme futurista, a bela atriz americana encarna uma mulher da qual só restou o cérebro. Visualmente deslumbrante e com paixão, o filme impressiona em muitas cenas, com sequências de ação incríveis, e merece uma conferida. 


Passado em 2029, o filme acompanha Major, uma mulher que após um acidente tem seu cérebro transportado para um corpo cibernético. Ela tem sentimentos humanos, mas um corpo de máquina. Enquanto busca se prender à sua humanidade, Major vê todas as pessoas à sua volta procurando ser mais robóticos, digamos assim. Ou seja, é possível ver um homem com saúde optando por um fígado aperfeiçoado apenas para poder beber mais. Major comanda um esquadrão de elite especializado em crimes cibernéticos. E terá o trabalho dificultado com o surgimento de Kuze (Michael Pitt), sujeito misterioso que parece disposto a acabar com a companhia tecnológica que criou Major e que auxilia sua equipe em missões. Ícone do cinema oriental, Takeshi Kitano rouba a cena sempre que aparece como o imponente Daisuke Aramaki, enquanto que a veterana Juliette Binoche surge na pele da Dra. Ouelet. Causou polêmica desde o início de sua produção por causa da escolha de Scarlett Johansson para viver a protagonista. Enquanto que uns atacam a opção com o selo de "whitewashing" (que é colocar um ator branco para viver um personagem não-branco originalmente), outros defendem que Major é uma robô e poderia ter qualquer cara. Contando com bons efeitos visuais, com boas sequências de ação e visualmente, conta com sequências inteiras remetendo ao japonês vale a pena conferir.



quinta-feira, 3 de agosto de 2017

TEMPESTADE DE AREIA (Sufat Chol / Sand Storm) Israel / Alemanha, 2016 – Direção Elite Zexer – elenco: Lamis Ammar, Ruba Blal, Hitham Omari, Khadija Al Akel, Jalal Masrwa, Shaden Kanboura, Omar El Nasasreh – 87 minutos

           UM FILME SOBRE O CONFRONTO ENTRE VONTADES INDIVIDUAIS E REGRAS TRIBAIS


Aclamado como o grande filme estrangeiro no Festival de Sundance 2016, “Tempestade de Areia” é um interessante mosaico etnográfico sobre culturas rígidas no sul de uma Israel beduína menos cosmopolita ou menos evoluída do que a imagem que se tem para o resto do mundo. Toda família já deve ter atravessado algum momento em que a moral aplicada à sociedade não vale para as regras domésticas: são aqueles casos nos quais tal atitude pode ser tolerada no bairro, “mas não com a minha filha”, e tal prática sexual é desejada, “mas jamais com a minha esposa”. E esse filme israelense sobre uma comunidade árabe, trata deste tipo de flexibilidade hipócrita das regras morais. Ele leva-nos a uma tribo de beduínos muçulmanos no sul de Israel para contar a história de Jalila, que prepara o casamento do marido com uma segunda mulher muito mais nova que ela, enquanto descobre o envolvimento da filha mais velha, Layla, com um colega de Universidade, uma relação que a família não aceitaria. “Tempestade de Areia” foi selecionado para representar Israel na competição pelo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2017. A diretora Elite Zexer levou vários anos a concluir a premissa da obra, empenhada em transmitir com fidelidade uma cultura diferente da sua. 


As personagens do filme não se dividem em maus e bons. É um filme sobre as mulheres e as condições em que vivem, em particular numa comunidade de tradições patriarcais, como a beduína. Segundo a diretora, “a história mostra-nos uma fase decisiva da passagem de Layla (a personagem principal) à maturidade. Depois de ter crescido como uma menina que é muito próxima do pai, Layla descobre que afinal o pai não vai poder ajudá-la em tudo, que o pai está confrontado a limitações, que se não for ela a lutar pelo que quer não vai aparecer um pai milagroso para resolver os problemas”. As imagens do filme justificam o título “Tempestade de Areia” não apenas como metáfora para a puberdade e a rebeldia dos jovens contra as gerações anteriores em um típico rito de passagem, mas também significa que o imenso deserto bege e opressor, cuja areia cobre tudo e todos, e entra em todas as frestas, são a mesma coisa que o fardo cultural imposto ali. É uma obra de profunda reflexão e análise interior levando o espectador a um mergulho no âmago dos seus próprios questionamentos. Quando a subversão das regras aparece como única possibilidade de felicidade, toda decisão se transforma num dilema moral.