Content on this page requires a newer version of Adobe Flash Player.

Get Adobe Flash player

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

A NOITE (La Notte) Itália/França 1960 – Direção de Michelangelo Antonioni – elenco: Marcello Mastroianni, Jeanne Moreau, Monica Vitti, Bernhard Wicki, Rosy Mazzacurati, Maria Pia Luzi, Guido A. Marsan, Vittorio Bertolini, Vincenzo Corbella, Ugo Fortunati, Gitt Magrini, Umberto Eco, Roberta Speroni, Giorgio Negro – 122 minutos  

ANTONIONI EXPÕE O DILEMA DOS PERSONAGENS E SE RESTRINGE A FILMÁ-LOS COM ELEGANTE DISCRIÇÃO.

Após dez anos de casamento, Lídia e Giovani passam uma noite permeada de momentos de angústia e luxúria, numa busca involuntária de respostas para a crise de seu relacionamento. Segundo filme da célebre "Trilogia da Incomunicabilidade", formada ainda por A AVENTURA (1960) e O ECLIPSE (1962), A NOITE é um marco do cinema moderno que não pode ser preterido por um bom cinéfilo. Nada além de tédio, arrependimento e dor. Seriam estes os motivos primordiais para dar cabo a uma relação? Haveria remédio para a enfermidade de um sentimento, seja ele bom ou maligno? Todo casal tem, claro, seus momentos de alegria e tristeza, faz juras de amor eterno, enfrenta brigas e faz reconciliações, aspectos que logo vêm a nossa mente ao abordarmos o complexo tema “casamento”. A crise desponta numa convivência a dois a partir do instante em que a rotina passa a dividir a mesa de jantar, o carro, o banheiro, a cama e tudo mais. Uma pessoa insatisfeita busca de todas as formas escapar do vazio interior, uma angústia penetra-lhe o peito, acompanhada pelo medo do isolamento e pela frustração do erro, o significado de tudo se altera bruscamente. E parece não haver malogro entre os vizinhos, o problema é isolado, exclusivo! Tampouco a riqueza material tem importância, o divertimento proporcionado pelo dinheiro é transitório, efêmero. O que sobra? Nada além de tédio, arrependimento e dor. 


A NOITE é uma verdadeira obra-prima. A personagem de Jeanne Moreau, Lidia, é talvez a mais próxima da realidade de toda a obra do cineasta italiano. Ela simboliza a mais pura condição de enfado e tristeza que um indivíduo é obrigado a sustentar no momento em que percebe a crise no próprio casamento. Lidia é uma mulher bonita, rica e inteligente, casada com o famoso escritor Giovanni Pontano (Marcello Mastroianni), mas algo não está bem, e ela sabe disso. Um desconfortável silêncio a separa do marido, como um cordão de isolamento; eles parecem cansados um do outro. Lidia tenta evitar Giovanni, ela caminha pelas ruas de Milão atrás de alguma coisa que a distraia, que a faça esquecer do marasmo de sua existência burguesa e de seu matrimônio repleto de lacunas. No entanto, nada consegue captar-lhe o interesse por muito tempo. Lidia ainda quer chamar atenção, rebola displicentemente entre uma calçada e outra, feito uma prostituta voltando para casa após uma cansativa noite de trabalho. Ela telefona para que Giovanni vá buscá-la, com um falso entusiasmo na voz — não pode ser acusada de não tentar, ao menos, fingir que está tudo bem (ela nem gosta de chorar diante do marido). Giovanni é do tipo que leva uma vida mais “passiva”, ele não corre atrás de novas distrações, aproveita unicamente aquelas que lhe são impostas ao acaso. Valentina (Monica Vitti, na época casada com Antonioni) é uma delas. Eles se conhecem numa festa promovida pelo pai dela, um rico industrial chamado Gherardini, e têm breves oportunidades de diversão e filosofia. Poderia ter sido qualquer outra mulher. O destino, porém, reservou aquela para Giovanni. E ele teve sorte: em poucos minutos, Valentina é capaz de ensinar mais sobre amor, solidão e respeito do que o escritor havia jamais experimentado com seus livros.

A impressão que se tem é de que o título faz metáfora ao crepúsculo no relacionamento do casal Pontano. Ambos vivem em sonambulismo constante, sonham com as mesmas pessoas e com os mesmos acontecimentos, todavia os interpretando de modo distinto. Os créditos iniciais mostram uma cidade em transformação, gruas e guindastes rodeando prédios novos, ainda inacabados; a idílica Milão vem sendo modernizada no auge do capitalismo italiano da década de 1960. O casal vivido por Jeanne Moreau e Marcello Mastroianni, porém, não acompanha essas mudanças com a mesma velocidade. Por um lado, Lídia é a figura da mulher arrependida que não vê a hora de seu tormento existencial acabar. Por outro lado, Giovanni é o intelectual que procura "soluções" para os problemas dos outros e que é incapaz de enxergar problemas em seu próprio ambiente (ou finge não enxergá-los). Lídia, ao final, quer terminar tudo; Giovanni, recomeçar. Já Antonioni não apresenta qualquer saída, expõe somente o dilema dos personagens e se restringe a filmá-los com elegante discrição. Jeanne Moreau e Marcello Mastroianni, vale mencionar, são atores excepcionais, capazes de dar tanta profundidade a seus personagens que por pouco podemos examinar-lhes a alma. Mastroianni, por exemplo, filtra o pedantismo e a pretensão de Giovanni para extrair dele, mais tarde, uma considerável dose de ingenuidade e confusão — notável a cena em que ele escuta Lídia a ler uma carta de amor sem no entanto perceber que ele mesmo a tinha escrito anos atrás. Assim, testemunhamos uma divergência entre os protagonistas: eles têm seus instantes de “fuga”, são atraídos por outros parceiros, mas a vontade de retornar aos braços do companheiro original nunca é de todo exterminada. Lídia conta ao marido que não o ama, então qual seria o motivo de carregar aquela carta apaixonada na bolsa? Ela realmente não o ama mais? 


Os quinze anos compreendido entre A AVENTURA, de 1960, e O PASSAGEIRO: PROFISSÃO REPÓRTER, de 1975, representa aquela que é considerada a melhor fase da carreira de Antonioni, falecido em 30 de julho de 2007. Foi o exato período em que ele construiu sua reputação de revolucionário e inovador, ganhou prestígio nos maiores festivais de cinema, foi indicado ao Oscar por BLOW UP – DEPOIS DAQUELE BEIJO (1966)  e inspirou um número sem fim de discípulos. A influência dele pode ser facilmente reconhecida na obra de diretores do passado e do presente, no mundo todo, inclusive no Brasil (basta conferir alguma coisa de Glauber Rocha, Walter Hugo Khoury e demais nomes do Cinema Novo, isso para se ater aos mais antigos). O jeito de abordar o drama psicológico para criar o máximo de tensão com o mínimo de diálogos, sem uma trama aparente, ou até mesmo sem desfechos "mastigados", é típico de Antonioni. Sua filmografia deve ser apreciada mais como um manifesto artístico daquela época, fazendo consonância a Alain Resnais ou Jean-Luc Godard — seus contemporâneos mais parecidos —, do que um mero produto do popular cinema italiano. Com seus planos lentos e silenciosos, porém sufocados de expressão e agressividade, Antonioni elevou o cinema a uma posição que antes somente a literatura reclamava por soberania na história da arte. Não foi o único a fazer isso, lógico, mas deu significante contribuição. A NOITE é o filme que melhor consegue interagir com o público, refutando qualquer afinidade por seus personagens estáticos e sendo bem-sucedido na verdadeira proposta de nos fazer refletir. O ECLIPSE, de 1962, consegue o mesmo. Pelo sim, pelo não, o melhor é conferir. Assistir a um Antonioni jamais será perda de tempo.


terça-feira, 19 de setembro de 2017

A AVENTURA (L’Avventura) Itália, 1960 – Direção de Michelangelo Antonioni – elenco: Monica Vitti, Gabrielle Ferzetti, Lea Massari, Dominique Blanchar, Renzo Ricci, James Addams, Dorothy De Poliolo, Lelio Luttazzi, Giovanni Petrucci, Esmeralda Ruspoli, Enrico Bologna, Jack O’Connell, Angela Tommasi Di Lampedusa, Renato Pinciroli – 143 minutos 

            UM DOS MARCOS DA HISTÓRIA DO CINEMA MODERNO 


Continuando o Festival Michelangelo Antonioni iniciado no sábado com “O Deserto Vermelho”, “A Aventura”, um dos três filmes da chamada “Trilogia da Incomunicabilidade”, está na lista dos seus melhores filmes. Uma viagem das entranhas do desejo humano à superficialidade da paixão casual. Narrado magnificamente na atual sociedade europeia, o filme se desenvolve através de cenas vívidas de grande beleza pictórica e sensualidade. A vida de um grupo de pessoas instáveis numa busca constante e sem fim pela realização espiritual e física. Os outros dois filmes são “A Noite” (1961), com Marcello Mastroianni e Jeanne Moreau e “O Eclipse” (1962), com Alain Delon e Monica Vitti. 


“A AVENTURA” conta a história de um grupo de seis burgueses entediados (três casais), que partem para um cruzeiro a uma ilha inabitada e isolada da Sicília. Uma das moças, Anna, em briga constante com o namorado e com o pai, desaparece. Não se sabe se ela simplesmente foi embora por tédio ou se tentou o suicídio. O filme se deterá na busca à mulher e o impacto que o desaparecimento teve em seus amigos – que é quase nenhum. Um dos grandes achados do filme é usar as ilhas, rochas, igrejas, cidades abandonadas e outras maravilhas arquitetônicas e naturais do sul da Itália como metáfora visual do vazio existencial das personagens.  A melhor amiga da desaparecida, Claudia, e seu namorado, Sandro, partem à procura da cidadã em cidades vizinhas. Logo se tornam amantes, não se sabe se por atração física ou se porque não tinham nada melhor mesmo para fazer.
Estrelando Monica Vitti, como Claudia, a mulher solitária, que encontra uma satisfação momentânea onde menos espera. Experimentando em poucos dias a felicidade e uma compreensão chocante da verdade. Gabrielle Ferzetti como Sandro, o arquiteto urbano, sofisticado, que se entrega a uma busca perpétua por satisfação. Ele está envolvido por uma autoindulgência exaustiva. Lea Massari como Anna, sua noiva, cujo comportamento arredio e misterioso tocou as vidas de todos que a amaram. Dominique Blanchar como Julia, frustrada, desesperada e atraída irresistivelmente pela juventude, por homens mais jovens. “A Aventura”, ganhador de cinco prêmios internacionais, é um clássico do cinema moderno, aclamado pelos críticos por sua maturidade e criatividade como uma nova experiência no erotismo cinematográfico. Um filme original, memorável e visualmente impressionante!! Uma obra-prima assustadora!! Um mito para essa Era de ansiedade!! Belo, excitante, inteligente, afiado e extremamente pitoresco.   



sábado, 16 de setembro de 2017

O DESERTO VERMELHO / DESERTO ROSSO – O DILEMA DE UMA VIDA (Il Deserto Rosso) Itália / França, 1964 – Direção Michelangelo Antonioni – elenco: Monica Vitti, Richard Harris, Carlo Chionetti, Xenia Valderi, Rita Renoir, Lili Rheims, Aldo Grotti, Valerio Bartoleschi, Emanuela Pala Carboni, Giuliano Missirini, Bruno Borghi, Beppe Conti, Giulio Cotignoli, Hiram Mino Madonia – 113 minutos

QUAL É O LUGAR DO SER HUMANO NUMA SOCIEDADE OCUPADA CADA VEZ MAIS PELA IDEOLOGIA UTILITARISTA REINANTE??


Como em tantos outros filmes de Michelangelo Antonioni, o enredo de O DESERTO VERMELHO é profundo e ao mesmo tempo simples. Numa zona industrial do norte da Itália -, chuva, neblina, frio e poluição assolam a cidade industrial de Ravenna -, Giuliana (Monica Vitti) é uma mulher mentalmente perturbada, com dificuldades terríveis de se encaixar na chamada "vida normal", tão festejada por seu marido, o engenheiro Ugo, (Carlo Chionetti), gerente de uma usina local. A chegada de um colega do marido, o também engenheiro Corrado Zeller (Richard Harris), que eles conhecem numa viagem à Patagônia, arranca-a por um momento de sua condição de sonâmbula, mas arrisca precipitá-la ainda mais fundo no abismo da incomunicabilidade. 


Em torno dessa situação, típica do "cinema da angústia" de Antonioni, o diretor construiu um de seus filmes mais belos, cujo sentido mais profundo não está nos diálogos ou no drama particular dos personagens, mas na rigorosa poesia de suas imagens. Em sua primeira experiência com a cor, Antonioni chegou ao requinte de mandar pintar gramados e árvores para atingir os tons exatos de determinados estados de espírito que desejava comunicar. A fotografia de Carlo Di Palma contrapõe primorosamente planos que ressaltam a cor e a textura de cada superfície (madeira, pedra, terra) a outros - em geral planos gerais das fábricas, estaleiros e descampados - em que uma bruma difusa torna indefinidos todos os contornos, compondo uma paisagem de aridez e melancolia. Não por acaso, Fritz Lang considerava a fotografia de O DESERTO VERMELHO a mais bela de toda a história do cinema. Para Antonioni, a degradação da vida na sociedade industrial é também uma degradação de imagem e da própria capacidade de ver. Seu cinema é difícil não por um suposto hermetismo de seus símbolos e referências, mas porque exige do espectador contemporâneo, bombardeado diariamente pelas imagens aviltadas da TV e da publicidade, um esforço de reeducação do olhar. Antonioni nos ensina a ver. 

Um dos grandes trabalhos de Monica Vitti, atriz com quem Antonioni foi casado. Ela faz a dona de casa angustiada, que não sabe direito de onde lhe vem tanto mal estar diante do mundo. A trilha sonora inusual, a fotografia em cores de Carlo Di Palma, valem ao filme uma ambientação muito marcante. É mais uma tentativa de retratar a vida alienada na sociedade contemporânea. Monica não sabe a razão da sua infelicidade. E essa é a tese de Antonioni: ignoramos o porquê, ele está oculto e faz parte da própria alienação. Vencedor do Leão de Ouro de Melhor Filme no Festival de Veneza, O DESERTO VERMELHO é uma das obras máximas do diretor. Em O DESERTO VERMELHO, Antonioni, no auge de sua forma, aborda os temas centrais de sua filmografia: a incomunicabilidade e a solidão do homem contemporâneo. 



sexta-feira, 15 de setembro de 2017

DEADPOOL (Deadpool) EUA, 2016 – Direção Tim Miller – elenco: Ryan Reynolds, Morena Baccarin, T. J. Miller, Karan Soni, Ed Skrein, Michael Benyaer, Stefan Kapicic, Brianna Hildebrand, Style Dayne, Kyle Cassie, Taylor Hickson, Isaac C. Singleton Jr., Jed Rees, Hugh Scott, Gina Carano, Rob Hayter – 108 minutos  

  POLITICAMENTE INCORRETO E USA DE HUMOR NEGRO DA MELHOR QUALIDADE

"Deadpool" não é apenas um anti-herói. É um anti-filme-de-super-herói na essência. E isso é uma ótima notícia. Os filmes de super-herói nunca mais serão os mesmos depois dele. Acredite em tudo o que você eventualmente leu a respeito do filme. Ryan Reynolds queria um filme bem ácido e conseguiu, e comemorou quando o filme pegou a classificação indicativa mais restrita do órgão responsável norte-americano. E, embora muitas cenas tenham sido divulgadas até a estreia, o melhor ainda foi mantido inédito. Tem também muita ação e é outro trunfo do longa de estreia do diretor Tim Miller (até então mais conhecido por seu trabalho de supervisor de efeitos especiais de “Scott Pilgrim Contra o Mundo). A violência é usada numa escala compatível com a do humor. Numa direção oposta à do frenesi de Michael Bay, por exemplo, aqui é possível “apreciar” cada detalhe dos embates, muitas vezes, em câmera lenta mesmo.


O filme é extremamente politicamente incorreto e usa de humor negro e muitas vezes grosseiro. Porém se assume assim de cara. Usa a teoria do caos do próprio protagonista a seu favor, já que a cabeça de Deadpool não regula muito bem. O público deve se animar para se entregar aos prazeres alegremente auto-depreciativos, pois o filme é assustadoramente engraçado e é a vitrine no cinema para a mais anárquica das criações de histórias em quadrinhos da Marvel. O maior acerto está no roteiro brilhante da dupla Rhett Reese e Paul Wernick (‘Zumbilândia’), repleto de piadas de cunho sexual, metalinguagem abusiva, linguagem nerd etc. Ryan Reynolds e a equipe de cineastas do filme acertam, criando uma atmosfera caótica, que testa todos os seus limites e é bastante fiel ao espírito jovial dos quadrinhos, cuja irreverência é contagiante. Um filme altamente diferente e divertido!! Vale o ingresso.  



domingo, 10 de setembro de 2017

GRITOS E SUSSURROS (Viskningar Och Rop) – Suécia, 1972 – Direção Ingmar Bergman – elenco: Liv Ullmann, Ingrid Thulin, Harriet Andersson, Kari Sylwan, Erland Josephson, Anders EK, Inga Gill, Henning Moritzen, Georg Arlin, Ingmar Bergman (narrador), Ingrid Bergman (espectadora), Lena Bergman (Maria criança), Rossana Mariano (Agnes criança), Monika Priede (Karin criança) – 90 minutos.

 UM VERDADEIRO ESTUDO DA ANGÚSTIA FEMININA EM VERMELHO PROFUNDO!!

Um filme de Bergman não cabe num registro rápido e momentâneo. Exige, no mínimo, um ensaio. Afinal, não é por nada que o cineasta sueco é estudado e discutido por psiquiatras e psicólogos - tanto ou mais do que por críticos de cinema. No máximo, uma informação pode auxiliar ao espectador menos entrosado no labiríntico universo bergmaniano a encontrar caminhos que esclareçam, ou ajudem a esclarecer, as suas proposições. É um filme hermético, e, por isso mesmo desafia o espectador que gosta de temas difíceis tratados com inteligência na tela. GRITOS E SUSSURROS concorreu ao Oscar, em cinco categorias (Melhor filme, Melhor Direção, Melhor Roteiro e Melhor Figurino; recebendo apenas um: o de Melhor Fotografia, pelo trabalho perfeito de Sven Nykvist). Como em todos os filmes de Bergman, há uma linha muito própria de visão do subconsciente dos angustiados personagens - querendo libertar-se de um mundo fechado na memória/cérebro de cada um. Lembrando ainda o lúcido comentário de um crítico: "Nesse filme estão todas as grandes linhas de pensamento e da arte bergmaniana: as influências de gênios escandinavos, de Strindgerg a Dreyer; os reflexos da formação cristã (definitivamente encerrada com a trilogia em torno do Silêncio de Deus); o existencialismo, especialmente pela vertente de Kirkegaard (já que a essência do melhor do cineasta é cultivar com paixão religiosa a dúvida de toda certeza)".

Foi o próprio Ingmar Bergman quem definiu GRITOS E SUSSURROS como um filme que se aproxima mais de um estado de alma do que propriamente de uma história a ser narrada dentro dos princípios básicos do cinema. Deixar transparecer o que se oculta sobre as formalidades das relações humanas é o objetivo dessa obra reveladora. Não que a trama envolvendo a agonia de uma mulher em estado terminal e de suas duas irmãs seja irrelevante. Muito pelo contrário. É no limiar da vida que Bergman percebe o momento das grandes revelações, aquelas abafadas pela moral, pelos costumes e pela religião. Obra de um autor maduro, o roteiro se apropria do universo das peças de Tchecov, em especial “Tio Vânia”, destrinchando o complexo universo das relações humanas, principalmente aquelas sustentadas por frágeis laços familiares. O olhar desafiador é herança não apenas de Tchekov, mas também de Ibsen, autor favorito e referência em todos os roteiros bergmanianos. Realizado em 1972, GRITOS E SUSSURROS talvez seja o filme que melhor sintetiza as preocupações estéticas e temáticas do diretor de MORANGOS SILVESTRES (1958). Foi dito talvez porque uma década mais tarde, Bergman se superaria com FANNY & ALEXANDER (1982), que além da densidade dramática é uma espécie de retrato da infância do autor. Ambos os filmes são geniais, completos e extraordinários. Em GRITOS E SUSSURROS, a agonia da personagem Ágnes (Harriet Andersson), que perpassa todo o filme, permite ao cineasta traçar um painel da impotência humana diante da morte, mesmo dilema presente em filmes como O SÉTIMO SELO (1956) e LUZ DE INVERNO (1962).  O destino inexorável lança os personagens à própria sorte, ou melhor, à falta de sentido de suas vidas tacanhas, enquadradas na rigidez das normas sociais de um mundo dominado pelos machos, símbolos moral protestante, que reprime a inventividade e o desejo.  


Ingmar Bergman confia às suas personagens femininas, que vivem uma espécie de exílio familiar, o caminho da salvação. A morte de Ágnes, ainda que por alguns instantes, liberta o amor contido de suas duas irmãs, a travada Karin (Ingrid Thulin) e a frígida Maria (Liv Ullmann). Já para Anna (Kari Sylwan), a criada, a morte de Ágnes representa a oportunidade de mostrar o humanismo e a compaixão intoleráveis no ambiente repressivo abordado pelo filme. Mas GRITOS E SUSSURROS é sobretudo um filme que se utiliza do requinte estético para expressar sentimentos. A fotografia do gênio Sven Nykvist em vermelho profundo, além de criar uma atmosfera onírica quase atemporal, ilumina instantes inesquecíveis de amor, ódio e ternura. Nykvist, fotógrafo de grande parte dos filmes de Bergman, reforça a idéia de clausura física e existencial, oferecendo um belíssimo contraponto na sequência final, quando irmãs e criada correm pela grama, num momento de paz, feminilidade e conforto, em que cessam os gritos e sussurros. Mas seria este um filme incompleto sem a interpretação formidável das três atrizes principais, cujas máscaras procuram justamente traduzir o indizível da alma humana.  São elas, por sinal, a matéria-prima do cinema bergmaniano. GRITOS E SUSSURROS pode ser visto ainda como uma reverência àqueles que são, na verdade, a alma do seu cinema - os atores, cujas imagens na tela ratificam a utopia cinematográfica do triunfo da vida sobre a morte. Belo, inesquecível, difícil, inquietante e extraordinário, obra-prima de riqueza infinita, é um dos filmes mais perturbadores do mestre Ingmar Bergman!! É um dos mais belos filmes do cinema! Um verdadeiro estudo da angústia feminina em vermelho profundo! É uma daquelas raras experiências que o espectador carrega por toda a sua existência!! Perfeito e obrigatório!!



sábado, 9 de setembro de 2017

A FONTE DA DONZELA (Jungfrukällan) Suécia, 1960 – Direção Ingmar Bergman – elenco: Max von Sydow, Birgitta Valberg, Gunnel Lindblom, Birgitta Pettersson, Axel Düberg, Gudrun Brost, Axel Slangus, Tor Isedal, Allan Idewall, Ove Porath – 86 min

COM UMA DIREÇÃO IMPECÁVEL, BERGMAN VOLTA A EXPLORAR O IMAGINÁRIO MEDIEVAL NUM FILME ABSOLUTAMENTE FASCINANTE!! 


Com um cinema do qual uma série de diretores é tributário declarado, não há como se manter impassível ante os seus retratos contundentes das vicissitudes moldando o ser humano. Em "A Fonte da Donzela", Ingmar Bergman se debruça novamente sobre a temática da Idade Medieval, que poucos anos antes ele já havia realizado uma obra-prima "O Sétimo Selo" (1957). Realizado em 1960, o filme gira em torno de uma família tipicamente medieval, com sua crença na vontade soberana de Deus para explicar todos os fenômenos da natureza. Nesse contexto, já é possível vislumbrar que Bergman se propõe, mais uma vez, a tratar de um tema que é recorrente em sua filmografia: a crise da fé. Controverso à época que estreou e certamente perturbador, “A Fonte da Donzela” garante ao espectador um vislumbre da temática que o diretor trabalharia posteriormente em sua “Trilogia do Silêncio(composta por Através de um Espelho – 1961;, Luz de Inverno - 1962 O Silêncio - 1963). Adaptado de uma balada sueca do século XIII, a obra trabalha em cima de temáticas como a religião – o conflito entre o chamado paganismo e o cristianismo -, inocência, moralidade e, é claro, o pecado. Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 1961, temos aqui um filme que não merece ser visto uma só vez, mas consecutivas a fim de experimentar todas as suas facetas.

A Fonte da Donzela” é um filme de transição do mestre sueco. A partir dali seus filmes estarão muito mais desacreditados na figura humana. Töre, ao descobrir que sua filha foi barbaramente atacada, não abre espaço para o perdão pregado na sua crença. Parte para um ritual pagão e comete um ato atroz. Seria ele tão bárbaro quanto os assassinos de Karin? Até onde o livre-arbítrio está para a religião e os homens? E o quão remediável é a culpa do homem cristão? A condução da narrativa é feita de forma gradual, deixando o espectador se ambientar e familiarizar não só com o local, mas também com a personalidade de cada um, o que irá provocar o grande choque na metade do filme, quando Karin, em sua inocência, é abordada por dois homens e um garoto que afirmam ser pastores. Ela oferece comida para eles que, em retribuição, são violentos e abusam dela sexualmente. Uma cena crua, que causa angústia.



O diretor apresenta uma espécie de fábula, densa e violenta, sobre a relação do homem com a fé e sua natureza multidimensional. O filme acaba tendo uma narrativa muito mais simbólica e cheia de metáforas dentro de questões religiosas. Divididos entre o lado cristão e pagão, os personagens frequentam igrejas e levam velas para Maria enquanto outros fazem promessas para o deus Odin. Assim como outros filmes do Bergman, a narrativa é bastante lenta. E neste contexto o espectador acompanha o destino violento de Karin e principalmente a transformação do seu pai. Ao final, a questão religiosa volta a ser apresentada em uma das sequências mais icônicas criadas pelo cineasta.  As provações da fé, a alma corrupta do ser humano e a perda da inocência, temáticas tão caras ao cineasta sueco que permeiam boa parte de sua filmografia, estão mais do que presentes no filme. Absolutamente fascinante e imortal!! Um dos filmes mais impressionantes da filmografia sueca!! 


sexta-feira, 8 de setembro de 2017

SONATA DE OUTONO (Hostsonaten / Autumn Sonate) Suécia / França / Alemanha, 1978 – Direção de Ingmar Bergman – elenco: Ingrid Bergman, Liv Ullmann, Lena Nyman, Halvar Björk, Arne Bang-Hansen, Marianne Aminoff, Gunnar Björnstrand, Erland Josephson – 99 minutos.

UMA AMARGA REFLEXÃO SOBRE AS RELAÇÕES FAMILIARES NUM FILME ABSOLUTAMENTE SOBERBO E BRILHANTE


O diretor sempre foi um cineasta da palavra. A força motora de seus filmes está na combinação texto mais a interpretação desse texto. SONATA DE OUTONO pode ser considerado, então, uma obra clássica do cinema do diretor sueco. É um filme estruturado no diálogo de duas mulheres, mãe e filha, que se encontram depois de uma ausência de sete anos: um encontro que reabre as crateras da relação entre as duas. 

Apesar da fotografia do colaborador fiel, Sven Nykvist, não perder a competência habitual, não existe privilégio para a imagem que, depois de dividir o papel de protagonista com o roteiro em filmes anteriores da dupla, aqui é apenas coadjuvante, embalagem, sem valor sígnico. Com o texto sob os holofotes, Bergman se muniu de duas grandes atrizes: a então companheira Liv Ullmann e uma lenda do cinema, Ingrid Bergman, que, apesar de conterrânea, não guarda parentesco com o cineasta. O texto acha então o tom certo, frio e cruel, na excelência das intérpretes. A evolução do filme, em virtude da competência da dupla, é gritante: começa como exercício retórico e se transforma enfim numa obra de referência, onde a palavra de Bergman se despe de um cunho estritamente intelectual-psicológico para virar um belo e difícil acerto de contas entre mãe e filha. 

Foi indicado ao Oscar, nas categorias de Melhor Atriz (Ingrid Bergman) e Melhor Roteiro. Uma obra-prima do mestre sueco, que foi lançada em DVD no dia 10 de agosto de 2006. A lendária Ingrid Bergman faz uma pianista que visita a filha (a notável Liv Ullmann), no interior da Noruega. Enquanto a mãe é uma artista de renome internacional, a filha é tímida e deprimida. Esse encontro tenso, marcado por lembranças do passado, revela uma relação repleta de rancor, ressentimentos e cobranças. Ao som de Chopin, Sebastian Bach, Schumann e Haendel, Ingmar Bergman tece uma amarga reflexão sobre as relações familiares num filme absolutamente brilhante. Interpretações magistrais das duas grandes atrizes num dos grandes filmes do cineasta sueco. Rigorosamente imperdível e obrigatório!!!!