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domingo, 19 de novembro de 2017

HORIZONTE PERDIDO (Lost Horizont) EUA, 1973 – Direção Charles Jarrott – elenco: Peter Finch, Liv Ullmann, Michael York, Olivia Hussey, Sally Kellerman, George Kennedy, John Gielgud, Charles Boyer, Bobby Van, James Shigeta, Kent Smith, John Van Dreelen, Larry Duran, Paul Delucca, Michael Bernal – 150 minutos 

VOCÊ JÁ SONHOU ALGUMA VEZ COM UM LUGAR LONGE, BEM LONGE DA FÚRIA DEVASTADORA DE UM MUNDO EM TUMULTO?? 


Esse é um remake do clássico de Frank Capra, realizado em 1937. Para muitos a versão antiga é melhor, mas para outros tantos especialistas em cinema preferem essa versão do Charles Jarrot, considerada superior.  Na época do seu lançamento, em 1973, em vários países, tanto a crítica quanto o público não apreciaram muito. Mas no Brasil foi um sucesso enorme, causando uma certa surpresa aos seus realizadores. O filme é recheado de canções inesquecíveis, todas do genial Burt Bacharach. Há que se dizer que houve um pequeno exagero em colocar tantos números musicais. O elenco do filme conta com um time de estrelas de primeira grandeza: Peter Finch, Liv Ullmann, Michael York, Olivia Hussey, George Kennedy, Sally Kellerman, Charles Boyer, Bobby Van, James Shigeta e John Gielgud. Coreografias de grande beleza e simplicidade contribuem para o charme do filme.

Durante um conflito no sul da Ásia - não fica claro qual é o conflito e nem qual é o lugar. Um grupo de fugitivos, desconhecidos entre si, tem seu avião sequestrado. Enquanto voam sem saber qual será o destino, uma tempestade derruba o avião que cai em algum lugar do Himalaia. Os sobreviventes são resgatados por pessoas que habitam um lugar chamado Shangri-la, onde existe a eterna juventude e a felicidade plena. Ainda no avião o espectador é apresentado aos personagens dessa utópica história. Richard Conway (Peter Finch), é um graduado funcionário da ONU e seu irmão, o egoísta George Conway (atuação inesquecível de Michael York). Olivia Hussey (a eterna Julieta de Zeffirelli) esbanja beleza e sofisticação. Também a solitária Sally (Sally Kellerman), uma repórter do Newsweek infeliz que vive se entupindo de remédios para perder a sobriedade. Sam Cornelius (George Kennedy), na verdade um empresário/engenheiro ganancioso e Harry Lovett (Bobby Van) uma espécie de humorista que não tem mais a atenção do público. Charles Boyer, já em fim de carreira, faz o Grand Lama, em uma performance tocante. E o grande ator inglês John Gielgud completa o painel de grandes interpretações. 

O filme é mais que um manifesto pacifista e cumpre seu papel de questionar qual é a civilização que estamos criando e o que nos motiva. HORIZONTE PERDIDO (1973) é um filme reflexivo, que questiona grandes valores e faz o espectador olhar para o mundo com um olhar crítico, mas ao mesmo tempo compassivo. Baseado no clássico romance de James Hilton é um filme para sempre!! Belo e inesquecível!!



sexta-feira, 17 de novembro de 2017

BOM COMPORTAMENTO (Good Time) EUA, 2017 – Direção Benny Safdie e Josh Safdie – elenco: Robert Pattinson, Benny Safdie, Jennifer Jason Leigh, Taliah Webster, Buddy Duress, Barkhad Abdi, Peter Verby, Saida Mansoor, Necro, Ben Edelman – 100 minutos

ROBERT PATTINSON INCENDEIA A TELA NUMA INTERPRETAÇÃO GRANDIOSA 


O filme se resume a um fio narrativo – uma história de fuga – com meandros que dialogam com o caos da cidade e que Ben e Josh Safdie julgam coniventes mais uma vez com seus macetes cinematográficos: o close e a textura. Parece uma busca mais discreta de um sentido ao qual referências modernas do gênero como Tony Scott ou Abel Ferrara já chegaram usando outros caminhos. “Bom Comportamento” se resume à tensão fantasma. Logo, é também um filme fantasma. Uma espécie de farsa, um filme de ação que inexiste, um jogo implícito da imagem e seu conteúdo jogado incessantemente ao espectador. Uma cidade que oferece apenas presas e caminhos tortuosos. 


O filme tem uma relação íntima com o tempo, não só em duração, mas também numa espécie de tempo cinematográfico, ou seja, fatos e ações pré-determinados que acontecem premeditadamente numa período diegético, fictício. “Bom Comportamento é um filme do tempo, de informações colocadas rigidamente para comporem um exercício formal que se revela extremamente rigoroso.


Um dos aspectos mais notáveis dessa obra é como ele nos coloca na posição do protagonista através da decupagem de Benny e Josh Safdie. Com constantes closes nos rostos dos atores, a dupla busca passar a sensação de instabilidade, com um ar frenético, que incomoda visualmente, mas que cumpre sua função, nos fazendo entender a preocupação do personagem, enquanto que ele próprio soa como se estivesse sob efeito de drogas, embora não esteja. Isso, claro, dialoga com sua ausência de sono, que já é bem marcada pela eficiente montagem de Ronald Bronstein e do próprio Benny Safdie, que esconde a transição entre sequências, de tal forma que sentimos como se tudo estivesse acontecendo seguidamente em poucas horas. 


Quem brilha é Robert Pattinson. Em seu trabalho mais consistente, o ator entrega um personagem que oscila entre a frieza e tranquilidade nos momentos que deve tomar uma atitude para resolver problemas, e a confusão quando percebe que seus planos não saem como o esperado. Pattinson vai bem, mas não se impõe gratuitamente. Seu personagem não é grandioso (ao contrário, é um ladrão comum) e não há uma tentativa de torná-lo maior do que o roteiro pede do ator. Mas é nos detalhes que vemos o destaque. No olhar e nos trejeitos criados. Interpretação poderosa e elogiada. 


quarta-feira, 15 de novembro de 2017

O FILME DA MINHA VIDA - Brasil, 2017 – Direção Selton Mello – elenco: Vincent Cassel, Selton Mello, Bruna Linzmeyer, Johnny Massaro, Bia Arantes, Rolando Boldrin, João Prates, Antonio Skármeta Vitória Strada – 113 minutos

                               ONDE SUTILEZA SE ENCONTRA COM BELEZA 


“O Filme da Minha Vida” é daqueles longas em que todos os personagens importam, incluindo a pequena trama de um menino que está doido para perder a virgindade. Um filme que conquista a nossa simpatia e mantém nosso interesse constante. (Almanaque Virtual)


Em certo momento da projeção, ao explicar a Johnny por que não gosta de ir ao cinema, Paco diz que este “é um troço escuro que você fica lá dentro vendo a vida dos outros em vez de cuidar da sua e perde duas horas da vida”. Pois de minha parte só tenho a agradecer aos responsáveis por esta obra. (Cinema em Cena)


Aliado ao tom episódico, cada minuto de projeção de “O Filme da Minha Vida” demonstra-se útil para entendermos os problemas, as decisões, os personagens (principais e secundários) e a vida simplória naquela cidade pacata e dona de charme marcante, duas características que podem ser literalmente atribuídas também a esse filme, dono de final forte e eficiente. (Cinema com Rapadura)


Esse trajeto existencial vem num formato em que a beleza joga papel fundamental. Sem ser um feel good movie (filme para se sentir bem) no sentido clássico, "O Filme da Minha Vida" é, como definiu Selton Mello, um presente para o espectador em tempos difíceis. Um bombom. (Jornal O Estado de São Paulo)


Mello guarda para si um papel coadjuvante e elege como protagonista Johnny Massaro. É a delicadeza da performance do jovem que dá corpo a uma discussão sobre ausência, herança e missão. (Rolling Stone)


A tradição de uma sociedade patriarcal manda que o filho assuma a liderança da família quando o pai vai embora. É assim na vida e, por reflexo, é assim no cinema; mas com a diferença que o segundo torna possível qualquer justificativa. Daí vem seu encanto. (Jornal O Globo) 



domingo, 12 de novembro de 2017

PATERSON (Paterson) EUA / França, 2016 – Direção Jim Jamursch – elenco: Adam Driver, Golshifteh Farahani, o cão Nellie, Rizwan Manji, Dominic Liriano, Trevor Parham, Troy T. Parham, William Jackson Harper, Chasten Harmon, Luis da Silva Jr., Brian McCarthy, Jaden Michael, Masatoshi Nagase, Barry Shabaka Henley, Method Man, Kara Hayward, Jared Gilman – 118 minutos

            O MELHOR FILME DO ANO!! UM TRIUNFO CINEMATOGRÁFICO!! 

A POÉTICA DO SIMPLES COMO ANTÍDOTO AOS EXCESSOS ALIENANTES DO MUNDO CONTEMPORÂNEO


Paterson é um motorista de ônibus que mora na cidade de Paterson, New Jersey – ele e a cidade dividem o mesmo nome. Diariamente, Paterson vive uma simples rotina: dirige pela rota diária, observa a cidade, ouve fragmentos de conversas, escreve poesias num caderno, passeia com o cachorro, bebe uma cerveja no bar de sempre e, finalmente, volta para casa, para a esposa Laura. Ela, em contraste, vive num mundo que sempre muda, com novos sonhos diários. Eles se amam. Ele a apoia no alcance das novas ambições, ela festeja nele o dom da poesia. “Paterson”, o filme, observa os triunfos e derrotas da vida diária com poesia evidente nos mínimos detalhes. 


Sim, Paterson (Adam Driver) é um motorista de ônibus na cidade de ... Paterson. Essa redundância é o primeiro achado poético do filme. Depois, de maneira inesperada, Paterson também acaba por escrever poesias. E, mais, vive poeticamente. Ou seja, tem contato com as coisas, na contramão da maneira distanciada e voltada para si que passa por normalidade em nossos dias. Paterson, o homem, é tão poético que escreve poesias sem qualquer pretensão de ser publicado, ficar famoso, ganhar dinheiro. É como se escrevesse para si em primeiro lugar, o que é boa definição do que seja vocação literária. Se alguém precisa escrever, se o impulso para a escrita nada tem de pragmático, mas expressa apenas sua necessidade interior, então sim se pode dizer que se é um escritor. Aliás, era um dos conselhos que Rilke dava ao jovem poeta. Se conseguir não escrever, não escreva. Se não tiver jeito de evitar, então você é um poeta. O roteiro é muito bem trabalhado e joga contra as certezas do espectador mais experiente. Ele repete uma situação inúmeras vezes. O espectador espera que sempre haverá uma consequência, mas ela nunca chega.


A atuação contida de Adam Driver, que entrega sua cara estranha e assimétrica a um homem estranho e assimétrico, colabora muito na realização desse personagem. O ator oferece um comportamento desinteressado de Paterson diante de seu grande dom. Numa das cenas mais preciosas do filme (que é recheado delas), Driver observa o acidente caseiro causado pelo cão de sua companheira com uma despretensão absolutamente carregada de ressentimento. Vê-se, pelas minúcias das feições do ator, uma torrente de intenção e sensações entregues à tela. Os melhores momentos, contudo, são quando os poemas invadem o quadro. Repetidos algumas vezes, geralmente com pequenas variações entre elas, os poemas são literalmente escritos em tela, quebrando a estética naturalista adotada até então. Paterson distrai-se pelo canto de um pássaro fora de enquadramento, e de algum modo isso nos transmite algo, coisa do que significa a poesia, essa escrita tão peculiar que parece mover a mente de tantos, ainda que sempre se mantenha restrita a um público pequeno. Assim, ele é didático sem perder a poética, porque a poesia demanda certas explicações.UM DOS MAIS BELOS FILMES DO ANO!! ABSOLUTAMENTE EXTRAORDINÁRIO!! 

sábado, 11 de novembro de 2017

DIVINAS DIVAS – Brasil, 2016 – Direção Leandra Leal – elenco: Rogéria, Jane Di Castro, Eloína dos Leopardos, Divina Valéria, Marquesa, Brigitte de Búzios, Camille K., Fujika Di Halliday – 110 minutos

UMA BELÍSSIMA HOMENAGEM A UM GRUPO DE ARTISTAS TANTAS VEZES CALADAS E EXCLUÍDAS


"Divinas Divas" além de mostrar um lado pouco comum das pioneiras artistas travestidas do Brasil, serve de inspiração para buscarmos um mundo mais inclusivo e respeitador a qualquer tipo de manifestação individuais, ainda que não seja igual a sua. Sem ser saudosista, o documentário mostra que para além das rugas, pregas e carnes flácidas, há uma riqueza infinita na arte de atuar e é preciso muita garra e coragem para assumir as escolhas de vida. Um velho ditado diz que os artistas morrem duas vezes, uma quando somem dos palcos e outra quando partem deste mundo, sendo a primeira vez a mais triste. Com “Divinas Divas”, Leandra Leal deu uma sobrevida artística a um grupo incrível de performers.

Por trás das câmeras, a diretora, uma das melhores atrizes de sua geração, tem atuação discretíssima. Pouco aparece, suas perguntas são delicadas, e não deixa dúvidas: reverencia, com prazer, essas artistas, tantas vezes caladas e excluídas. Este belo filme aporta como um grande sopro de criatividade e simplicidade em uma era que os direitos humanos nunca estiveram tão ameaçados pela truculência religiosa e política. Leandra Leal entrevista as grandes estrelas do passado e consegue fazê-las despejar um pouco de suas essências no filme, deixando pouco espaço, ou nenhum, para vontades não supridas do público. "Divinas Divas" é realmente mais do que um filme, é parte digna e muito necessária da cultura de nosso país.


Sem fugir de sua extrema aproximação com o que é contado em tela e aproveitando todo o saudosismo para transformar "Divinas Divas" tanto em um material histórico para a memória de sua família, o filme agarra e conquista os espectadores com seus sentimentos tão energizantes e carinhosos. A atriz Leandra Leal assume a tarefa de contar, na primeira pessoa, uma história que é a sua própria. Como nos melhores filmes, há momentos de ternura, melancolia e do humor mais desbragado, digno dos ícones deste carisma e valentia. "Divinas Divas" é sensível, tocante e necessário, pois quebra qualquer estereótipo preconceituoso ao relembrar que um dia já fomos mais alegres e menos intolerantes. E tudo isso, com muito brilho!



quinta-feira, 9 de novembro de 2017

METELLO, UM HOMEM DE MUITOS AMORES (Metello) Itália, 1970 – Direção Mauro Bolognini – elenco: Massimo Ranieri, Ottavia Piccolo, Tina Aumont, Lucia Bosé, Frank Wolff, Pino Colizzi, Mariano Rigillo, Luigi Diberti, Manuela Andrei, Corrado Gaipa, Adolfo Geri, Claudio Biava, Franco Balducci, Steffen Zacharias, Sergio Ciulli, Renzo Montagnani, Piero Morgia, Gino Pernice, Luigi Antonio Guerra, Compagnia Stabile del Teatro Comunale di Firenze – 107 minutos

                         UMA OBRA DE ARTE MEMORAVELMENTE REALIZADA!! 


O Filme que representou oficialmente a Itália no Festival de Cannes e deu o prêmio de interpretação à novata Ottavia Piccolo. É o aclamado filme do requintado Mauro Bolognini. A história gira em torno de um rapaz, Metello Salani (Massimo Ranieri), que órfão desde cedo, ruma para a Florença em 1890, onde vai trabalhar como ladrilheiro. Mas logo é reconhecido pelos socialistas e anarquistas que foram companheiros de lutas de seu pai. E também se verá envolvido nas intrigas e prazeres da sociedade “Oitocentista”, querido pelas mulheres e tudo mais. No elenco feminino, uma grande presença: Lucia Bosé.  


Metello é um rapaz que luta para escapar da pobreza que levou seus pais à morte prematura, e que parece ser o destino de grande parte da classe trabalhadora no norte da Itália durante a segunda metade do Século XIX. Metello luta para sair de sua condição pobre através do trabalho duro, de uma vontade inabalável de resistir à opressão herdada de seu pai, mas também tirando proveito de sua boa aparência quando se trata de seduzir as mulheres. Ele assume progressivamente um papel importante na organização de um movimento operário emergente, e tenta conciliar suas atividades políticas arriscadas com sua vida privada. Uma obra de arte memoravelmente realizada!! 



domingo, 5 de novembro de 2017

A VIAGEM DE FANNY (Le Voyage de Fanny) França, 2017 – Direção Lola Doillon – elenco: Léonie Souchaud, Fantine Harduin, Juliane Lepoureau, Ryan Brodie, Anaïs Meiringer, Igor van Dessel, Lou Lambrecht, Cécile De France, Stéphane De Groodt, Lucien Khoury, Victor Meutelet, Elea Körner, Jérémie Petrus – 94 minutos

                   UMA INCRÍVEL HISTÓRIA DE BRAVURA E SOLIDARIEDADE


Com seus 12 anos, Fanny é uma menina muito teimosa, mas é, sobretudo, uma jovem corajosa que, escondida num lar distante de seus pais, cuida das duas irmãs mais novas. Tendo que fugir precipitadamente, ela se coloca à frente de um grupo de oito crianças e inicia uma perigosa viagem através da França ocupada para chegar à fronteira da Suíça. Baseado em fatos reais, A Viagem de Fanny conta os horrores da Segunda Guerra Mundial atravessando impiedosamente a infância de judeus obrigados a uma vida errante, longe dos pais. Diferentemente de outros filmes, que filtram as agruras de conflitos e/ou de períodos nefastos, como as ocupações e as ditaduras, por exemplo, pelo olhar pueril que acompanha tudo de fora, aqui as crianças são tragadas pela fúria nazista, enfrentando constantemente situações limítrofes. A cineasta Lola Doillon mescla aventura e drama de sobrevivência, não se esquecendo das minúcias históricas, até mesmo criticando abertamente o colaboracionismo francês, visto, aliás, como decisivo para a instauração das tensões vistas ao longo da trama. A protagonista é a menina Fanny (Léonie Souchaud), mais velha de três irmãs que, como outros tantos mais ou menos de sua idade, vive numa casa sob a proteção de gente abnegada, cuja oposição à intolerância se dá na esfera da solidariedade, na ajuda perigosa ao próximo.


O filme é uma realização atenta aos detalhes, dos quais se desprende a relevância de um relato que choca o mundo dos adultos, então assombrados pela violência alemã, com o das crianças, que penam para entender o que está acontecendo. A Segunda Guerra Mundial parece ser uma fonte inesgotável de enredos para a indústria cinematográfica. Diversos filmes já retrataram o período sobre os mais diversos aspectos e personagens. Histórias para os mais diversos públicos. Filmes como “O Pianista”, “O menino do Pijama Listrado”, “O Zoológico de Varsóvia”, “O Resgate do Soldado Ryan”, até mesmo o brasileiro “Olga”, são alguns dos exemplos de obras que resgataram a memória dos horrores da Segunda Guerra. Aqui a imaginação não permite brincar, o que está em jogo é a sobrevivência de um grupo de crianças, que sem os pais, fogem da possibilidade da execução. Ainda que a perspectiva seja o olhar de uma criança de doze anos, o tom do filme está longe de ser infantil, a realidade faz com que o olhar sobre a infância se perca em meio a necessidade da sobrevivência.



sábado, 4 de novembro de 2017

BANCANDO A AMA-SECA (Rock-a-Bye Baby) EUA, 1958 – Direção Frank Tashlin – elenco: Jerry Lewis, Marilyn Maxwell, Connie Stevens, Salvatore Baccaloni, Reginald Gardiner, Hans Conried, Isobel Elsom, James Gleason, Gary Lewis, Ida Moore, Hope Emerson, Alex Gerry, Mary Treen, Judy Franklin – 103 minutos

JERRY LEWIS PÕE EM PRÁTICA O SEU HUMOR NONSENSE QUE TANTO LHE AGRADAVA


Após uma longa temporada trabalhando ao lado de Dean Martin em filmes produzidos pela Paramount, Jerry Lewis deu início à carreira solo e pôde colocar em prática o humor nonsense que tanto lhe agradava. Sob a direção de Frank Tashlin, ele interpreta Clayton, um técnico em eletrônica que nutre uma paixão por Carla, uma vizinha que se tornou estrela de cinema. Ele, no entanto, tem sua vida alterada quando sua musa lhe entrega suas trigêmeas para que tome conta enquanto ela termina as filmagens de um épico. E aí começa uma sequência de situações engraçadas envolvendo mamadeiras, ursinhos de pelúcia e fraldas.
Bancando a Ama-Seca não faz propaganda enganosa. A cena em que apresenta Clayton para o espectador dura quase oito minutos em função de uma mangueira fora de controle, que molha e destrói casas. Jerry Lewis deita e rola, literalmente, pois atingiu a sua meta: o público sabe que está ali para se divertir. E o auge dessa diversão se dá quando ele, tentando enganar o avô das trigêmeas, interpreta vários papéis dentro de uma televisão quebrada. O filme foi produzido em 1958, e por conta disso tem tendências bem machistas, mesmo que o protagonista assuma a responsabilidade de cuidar de três bebês sozinho. Compreensível, já que Hollywood pode até bancar a moderninha, mas no fundo alimenta sonhos de princesa, com direito a casamento e casa com jardim florido. Jerry Lewis virou lenda do cinema com seus filmes de comicidade e, para ele, a hilaridade sempre comandava o espetáculo. Excelente filme, merece ser visto e revisto. 




quinta-feira, 2 de novembro de 2017

A PEREGRINAÇÃO (Pilgrimage) Irlanda / Bélgica / EUA, 2017 – Direção Brendan Muldowney – elenco: Tom Holland, Richard Armitage, Jon Bernthal, John Lynch, Rúaidhrí Conroy, Hugh O’Conor, Tristan McConnell, Donncha Crowley, Stanley Weber, Peter Cosgrove, Lochlann O’Mearáin, Nikos Karathanos – 96 minutos

                                           UMA VIAGEM FEITA DE SANGUE 


Com uma direção primorosa de Brendan Muldowney, a trama gira em torno de um grupo de monges que se comprometem com uma peregrinação para o transporte da relíquia mais sagrada de seu mosteiro em Roma. Quando o verdadeiro significado da relíquia é revelado, a viagem torna-se muito mais perigosa, e a fé do grupo e lealdade para com o outro são testados. Jon Bernthal interpreta um monge mudo com um passado violento. Richard Armitage retrata um cavaleiro misantropo com quem os monges são obrigados a compartilhar sua jornada. E Tom Holland, o atual Homem-Aranha do universo da Marvel, é o irmão Diarmuid, o jovem noviço que encabeça a travessia. 


A produção é considerada um veículo para a ascensão desses três atores principais, e   apesar de não ser uma super produção, o filme tem muito a oferecer. Com uma ambientação impecável e uma narrativa cativante, o filme está agradando plateias por onde é exibido. No filme, ambientado na Irlanda do ano 1209, um pequeno grupo de monges inicia uma relutante peregrinação por um país dividido e ameaçado pelo crescente poder de invasores nórdicos. Escoltando uma relíquia cristã, que supostamente teria o poder supremo, os corajosos integrantes do grupo arriscarão suas próprias vidas, e dentre eles, está o jovem Diarmuid (Tom Holland), que nunca viu o mundo fora da ilha onde convive com seus irmãos monges, e um misterioso estranho mudo (Jon Bernthal), que foi acolhido pelo grupo anos atrás. Ambos terão um papel decisivo no destino do grupo e da relíquia que carregam.


O cineasta irlandês apresenta um cuidado com a qualidade de sua produção. Maravilhosamente fotografado por Tom Comerford, colaborador habitual do diretor, o filme explora com perfeição o belo e desolador cenário invernal da Irlanda, que garante à produção um clima um tanto opressivo que se encaixa perfeitamente na narrativa. Também o cuidado do diretor na concepção de sua obra, que ganha em veracidade por exemplo na utilização de diversos idiomas em sua produção, onde o talentoso elenco profere diálogos em dialetos irlandeses, em francês, entre outras línguas. O roteiro do estreante Jamie Hannigan explora bem o turbulento momento religioso do período que sua história retrata, dissertando sobre as inconsistências do cristianismo e das vertentes religiosas que o confrontavam. É uma produção rica em contexto e executada com bastante competência, que discorre de maneira interessante sobre os desígnios da fé em conflito com as antigas superstições, além do poder da irmandade e da lealdade entre os homens.



domingo, 29 de outubro de 2017

A INOCENTE FACE DO TERROR (The Other) EUA, 1972 – Direção Robert Mulligan – elenco: Uta Hagen, Diana Muldaur, Chris Udvarnoky, Martin Udvarnoky, Norma Connolly, Victor French, Loretta Leversee, Lou Frizzell, Portia Nelson, Jenny Sullivan, John Ritter, Jack Collins, Clarence Crow – 108 minutos

UM DOS FILMES MAIS CARREGADOS DE INTENSIDADE DRAMÁTICA DOS ÚLTIMOS 50 ANOS!! ABSOLUTAMENTE ASSUSTADOR E TENSO!! 

É um dos mais extraordinários filmes de terror psicológicos já feitos pelo cinema e um dos mais carregados de intensidade dramática dos últimos 50 anos. Realizado numa década onde outros dois gigantes do terror assombraram plateias do mundo inteiro: “O Exorcista” (1973) e “A Profecia” (1976), “A Inocente Face do Terror” pode ser comparado ou avaliado na mesma proporção desses dois citados clássicos. Com direção competente e segura de Robert Mulligan (que realizou em 1962 “O Sol é Para Todos” e em 1971 “Houve Uma Vez... Um Verão”), o filme possui um toque sobrenatural e prioriza o desenvolvimento de personagens. Com roteiro de Thomas Tryon, adaptado de seu próprio livro, trata-se uma obra-prima do cinema de suspense, um dos mais desconcertantes clássicos do terror psicológico. A história se passa em 1935, numa comunidade rural norte-americana, em Connecticut, em uma fazenda. Niles e Holland Perry são gêmeos idênticos e, supostamente, estão por trás de eventos sinistros que estão ocorrendo na região. O diretor sugere mais do que mostra e isso faz toda a diferença. 


Histórias de crianças em filme de terror nunca foram novidades nem na vida real nem nos cinemas e muitas são conhecidas do público, como as crianças do clássico “Os Inocentes” (1960), com Deborah Kerr; os irmãos em “Os Que Chegam Com a Noite” (1972), com Marlon Brando; o menino sinistro de “A Profecia (1976), com Gregory Peck; o adolescente perturbado de “Precisamos Falar Sobre o Kevin” (2011), com a Tilda Swinton; as crianças de “Todas as Noites às Nove” (1967), com Dirk Bogarde; e “Os Meninos” (1976); as meninas de “O Espírito da Colmeia” (1973) entre outras. São sempre retratadas como crianças lindas e ingênuas, com aparência acima de qualquer suspeita, mas, na verdade, escondem um lado tenebroso. 


O filme aqui em questão ganha pontos por esconder ao máximo a revelação, sem que o espectador possa imaginar a real situação do protagonista e os motivos que o levaram a ficar nessa condição. Também é eficiente no sentido de mostrar que um dos meninos não nasceu ruim, ele se tornou, e sua personalidade ruim foi alimentada indiretamente por algo sinistro e devastador. Um dos gêmeos é a cara da bondade, é muito querido por todos e muito gentil. Já o outro começa a demonstrar sinais de psicopatia desde cedo, fazendo brincadeiras sinistras que irritam os vizinhos e os familiares. Sem sombra de dúvida, é um dos filmes mais aterrorizantes do cinema e está entre os dez melhores filmes de terror de todos os tempos. Obrigatório 



sábado, 28 de outubro de 2017

IT: A COISA (It) EUA, 2017 – Direção Andy Muschietti – elenco: Jaeden Lieberher (Bill Denbrough), Jeremy Ray Taylor (Ben Hanscom), Sophia Lillis (Beverly Marsh), Finn Wolfhard (Richie Tozier), Chosen Jacobs (Mike Hanlon), Jack Dylan Grazer (Eddie Kaspbrak), Wyatt Oleff (Stanley Uris), Bill Skarsgard (Pennywise), Nicholas Hamilton (Henry Bowers), Jake Sim (Belch Huggins), Logan Thompson (Victor Criss), Owen Teague (Patrick  Hockstetter), Jackson Robert Scott (Georgie Denbrough), Stephen Bogaert (Mr. Marsh), Stuart Hughes (Officer Bowers) – 135 minutos

                                               VOCÊ TAMBÉM VAI FLUTUAR


Esta adaptação da obra clássica de Stephen King segue por rumos inesperados, mesmo para quem conhece os conflitos da história. “It - A Coisa” ora trabalha com cenas explícitas, ora prefere a sugestão; em alguns momentos, soa bastante realista (a agressão a Ben), para depois investir puramente na fantasia (a casa abandonada). A transição torna-se possível pela configuração particular do vilão. Devido à capacidade de adquirir a “aparência dos maiores medos” de suas vítimas, ele soa fantasista, irreal, mas seus dentes e suas garras ferem de modo palpável. A “coisa” combina o funcionamento de um fantasma e de um assassino em série, com resultados potentes. O elenco foi muito bem escolhido e dirigido. Este grupo de minorias – um gordo, um negro, um judeu, um garoto sempre doente, uma garota sexualmente ativa – se ajuda mutuamente, sem ser tratado como vítimas pelo roteiro. Finn Wolfhard é explorado como alívio cômico, quase excessivamente, enquanto Jaeden Lieberher encarrega-se de um drama discreto e eficaz. Talvez a melhor surpresa seja Sophia Lillis, a única garota do grupo, capaz de transmitir uma notável gama de sentimentos dentro de uma mesma cena, apenas com a força do olhar. (Adoro Cinema)


Assustador, mas também emocionalmente visceral, o filme articula convulsamente as ansiedades universais associadas à adolescência. Consistentemente, persuasivamente enervante, "It - A Coisa" transforma o drama do processo de crescimento em um pesadelo. (Screen International)
A estética do pesadelo nunca foi tão deslumbrante. Filme de terror não é feito só de susto ou cenas de impacto, e sim de ambientação e crônicas sociais através das metáforas críticas que o realismo fantástico consegue passar mais impunemente. (Almanaque Virtual)

“It: A Coisa” é a primeira parte de uma história com muitos elementos e personagens marcantes. A opção por construir o terror a partir do medo de cada um dos protagonistas é o principal mérito e, nesse sentido o filme entrega uma ótima experiência. (Cinema com Rapadura)


O diretor tira do horror a materialidade, fazendo-o abstrato e indeterminado - o que torna o filme interessante. Nesses pequenos momentos “It: A Coisa” reafirma o horror como algo mais do que artimanhas surradas que andam desfilando nas telas. (Criticos.com.br)
O filme apresenta um aspecto sombrio e asfixiante, incomum em filmes deste gênero. Ele consegue misturar nas mesmas cenas o prazer inocente de um trem fantasma e a angústia própria à melancolia adolescente. (critikat.com)

O trabalho é impecável, os desempenhos são incrivelmente fortes, e a fidelidade ao material de origem, mais espiritual que específica, é admirável. (The Playlist)


sexta-feira, 27 de outubro de 2017

OKJA (Okja) Coreia do Sul / EUA, 2017 – Direção Joon-ho Bong – elenco: Tilda Swinton, Jake Gyllenhaall, Paul Dano, Sheena Kamal, Michael Mitton, Colm Hill, Kathryn Kirkpatrick, Jose Carias, Giancarlo Esposito, Seo-Hyun Ahn, Hee-Bong Byun – 120 minutos

                            O CINEMA FAZENDO O ESPECTADOR  PENSAR

Com um discurso constante de defesa à natureza, OKJA paulatinamente caminha rumo a temas importantes sem jamais deixar de lado o entretenimento. Tanto que, especialmente no primeiro terço, o filme investe bastante em cenas de ação e até mesmo em um humor infantilizado, incluindo questionáveis situações escatológicas. Tudo para de imediato capturar a atenção do espectador de forma que, mais a frente, possa desvendar toda a batalha midiática até então oculta. O filme, que nunca para de se movimentar, é denso e repleto de informação e sentimentos. Pedaços de sátira pipocam e logo são varridos por ondas de fortes emoções.


Diante de tamanha excelência de roteiro e execução, deve-se também destacar a qualidade do elenco. Se a jovem Seo-Hyun Ahn desponta pelo carisma e Tilda Swinton reprisa sua excelência habitual na criação de versões exóticas, Jake Gyllenhaal e Paul Dano entregam personagens absolutamente deliciosos, seja pelo linguajar corporal ou pelo idealismo exacerbado. Quem também chama a atenção é Giancarlo Esposito, não propriamente pela atuação mas pela escalação de forma que o público imediatamente remeta seu personagem a Gus Fring, o icônico vilão da série Breaking Bad, também por ele interpretado. Uma escolha inteligente de casting, por estender o papel além do que o próprio roteiro lhe oferece.


Este é um filme de entretenimento incrivelmente bem realizado, um filme do tipo mais satisfatório, reconfortante e restaurador que há: com um coração tão grande, o filme até pode trazer bastante reflexão, mas o espectador pode simplesmente querer se aconchegar e aproveitar a jornada. Ninguém, mas ninguém mesmo, faz filmes como Bong Joon-ho, um mestre sul coreano que combina conceitos barrocos, visuais épicos, elencos internacionais e um senso de humor que pode fazer rir no meio das tramas mais obscuras. O filme aproveita para condenar a ganância desmedida e a natureza sociopata das grandes corporações, que, jamais satisfeitas com seus lucros descomunais, quebram leis e ignoram quaisquer princípios éticos em troca de uns centavos adicionais. O que torna "Okja" interessante dentro da cinematografia do coreano é que, mesmo em busca desse discurso universalizante, Bong não lima as arestas que fazem seu cinema tão particular, principalmente em relação à variação de tons e gêneros. É uma fábula muito bem construída no que tange à oposição entre a avareza do capital e a necessidade de preservar a vida.