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domingo, 29 de janeiro de 2017

MOONLIGHT: SOB A LUZ DO LUAR (Moonlight) EUA, 2016 – Direção Barry Jenkins – elenco: Alex R. Hibbert (Little), Ashton Sanders (Chiron), trevante Rhodes (Black), Jharrel Jerome (Kevin adolescente), André Holland (Kevin adulto), Mahershala Ali (Juan), Naomie Harris (Paula), Stephon Bron (Travis), Janelle Monáe, Shariff Earp – 111 minutos

    UM RETRATO UNIVERSAL DA SOLIDÃO, QUE RECUSA O LUGAR-COMUM


Estupendo, forte, poderoso, assustador e devastador, todos esses adjetivos são poucos para expressar a grandeza de um dos melhores filmes do cinema: MOONLIGHT.  Eleito o melhor de 2016 por 65 críticos, mais do que qualquer outro (o segundo lugar, “La La Land: Cantando Estações”, ficou em #1 na lista de 37 deles). Mesmo com o favoritismo de “La La Land” no Oscar 2017, MOONLIGHT ainda é o filme mais premiado do momento: foram, até agora, 141 prêmios contra 134 do musical de Damien Chazelle. Aclamado como um dos maiores filmes da História, é uma pérola que precisa ser descoberta por todos que amam o cinema. A grande sacada desta obra-prima está nas questões de raça e preferência sexual, que no entanto, ganham contornos ao mesmo tempo simples e complexos quando transpostas para um universo essencialmente masculino. As mais belas descobertas ocorrem quando as mesmas coisas são vistas com um novo olhar. O filme foi sensação no último Festival Internacional de Cinema de Toronto no ano passado e fala sobre a vida de um garoto de origem humilde que precisa enfrentar os absurdos feitos pela mãe e acreditar nas suas escolhas num mundo tão insensível em que vivemos.


Escrito e dirigido por Barry Jenkins, a partir de uma ideia de uma peça, o filme é o que, em cinema, se chama de um verdadeiro estudo de personagem. Apelidado de “Little” (pequeno), o tímido Chiron (Alex Hibbert) mora numa comunidade pobre da Miami da explosão do crack dos anos 1980 e, desde novo, sofre com os colegas de escola. Quando chega na adolescência (quem assume é Ashton Sanders, numa performance poderosa e poética), a introspecção aumenta na mesma proporção do bullying. Somam-se mais dez anos a essa história e vemos Chiron como “Black” (o ex-atleta Trevante Rhodes, ótimo em sua estreia no cinema), já líder do tráfico local. O que não muda, ao longo das três fases em que o filme divide a vida do personagem, é a busca por autoconhecimento – algo universal, inerente à vida de qualquer um, independente da cor da pele ou de com quem você se deita. O filme é uma grande crítica social. O preconceito e a violência andam lado a lado, paradigmas impostos por um planeta repleto de caos vivendo todo dia com medos aflorando e com cada vez menos luz no final desse túnel. O protagonista vive grandes conflitos dentro de si e acaba sendo exposto por conta de toda a dificuldade que possui com sua mãe, que deveria ser seu primeiro ombro amigo. Na infância, descobre Juan, o traficante que vendia drogas para sua mãe, um conflito de direções com uma cena emblemática à beira de uma mesa de jantar. Em sua adolescência, onde o roteiro segue firme em sua tentativa de fazer um grande raio-x não só do protagonista, mas da sociedade ao seu redor, a descoberta da sexualidade chega com grande surpresa e uma situação que tenta entender aos poucos. 

Ao longo de sua trajetória narrativa que se divide por tripartição clássica – infância, adolescência e idade adulta, existe a periculosidade de uma outra: Chiron é negro, gay e pobre. Ele pode ser centenas de outras coisas, e de fato o é, mas se constrói primordialmente assim. E é exatamente essa construção e da forma que é narrada que torna o filme poderoso, emblemático e pujante. Há que se destacar a belíssima fotografia de James Laxton. Ele aumenta o contraste da paleta de cores para buscar a justaposição do sol de Miami com o sofrimento no rosto de Chiron, ressaltando suas expressões faciais. O filme é triste, mas, ao mesmo tempo, é uma obra genialmente bela, tocante e verdadeira. A  jornada de descoberta de Chiron, durante suas três fases, faz com que relembremos as nossas próprias jornadas, ainda em curso. Mahershala Ali e Naomie Harris apresentam interpretações impecáveis o que os torna os favoritos ao Oscar nas categorias de Coadjuvantes. Há um olhar brilhante do diretor sobre temas muitas vezes esquecidos no cinema, mas urgentes, necessários e representativos como o ser gay, o ser negro, o ser periférico, o que solidifica sua inestimável importância social. MOONLIGHT possui uma delicadeza devastadora e provocante, o que o torna uma história para toda a vida. Indicado a 08 Oscar, incluindo Melhor Filme. ABSOLUTAMENTE MAGNÍFICO E BELO!!! O MELHOR FILME DO ANO!!! 


sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

LOVING (Loving) Inglaterra / EUA, 2016 – Direção Jeff Nichols – elenco: Joel Edgerton, Ruth Negga, Will Dalton, Alano Miller, Chris Greene, Sharon Blackwood, Christopher Mann, Andrene Ward-Hammond, Jevin Crochrell, Jordan Williams Jr., Georgia Crawford, Nick Kroll, Brenan Young, Dalyn Cleckley, Quinn McPherson, Jon Bass, Michael Shannon, David Jensen, Marton Csokas, Winter-Lee Holland – 123 min

                    QUANDO UM AMOR VERDADEIRO MUDA UMA NAÇÃO

Tendo em mãos uma história real que simplesmente mudou uma questão da constituição norte-americana por conta de um casamento inter-racial, o diretor Jeff Nichols seca sua narrativa até o limite, trabalhando quase que exclusivamente com o olhar. O filme abre com um close de Mildred contando ao namorado Richard Loving que está grávida. O plano é longo, a representação transmite dúvida e insegurança e no momento que aprendemos a informação, conhecemos imageticamente seu outro protagonista. Com uma comunicação que usa o silêncio como forma de criar atmosfera de delicadeza, o trabalho do diretor deve ser também muito agradecido pela presença da dupla Joel Edgerton e Ruth Negga (indicada ao Oscar 2017 na categoria de Melhor Atriz). Num ato de bravura, essas três pessoas compraram a briga de que um amor tão desbravador poderia sim ser introspectivo e ainda assim lotado de sentimentos. Acompanhamos então o jogo de absurdos no qual são arremessados Mildred e Richard, que continuamente passam a ser presos, perseguidos e ameaçados pelas autoridades por não serem da mesma raça. Toda a revolta, o amor de um pelo outro, a esperança, são vendidos pelo mais que expressivo olhar de ambos os atores. Repletos de coadjuvantes ao seu redor, Edgerton e Negga compuseram uma sinfonia mais que delicada com todos eles, contribuindo todos para o espetacular emocional demonstrado entre esse casal que se comunica bem pouco através de verbalização, mas que conseguem compartilhar seu imenso talento e sua química.


Praticando uma misé-en-scene clássica, Jeff Nichols sabe utilizar com sabedoria as ferramentas estéticas que têm a sua disposição: o filme, apesar de ser linear em seu conflito e por vezes ter bastante simplificação por parte do roteiro (os homens da lei - policiais e juízes que os antagonizam - são francamente e propositadamente unidimensionais) não pretende provocar lágrimas facilmente, portanto segue um ritmo próprio. Falando em Joel Edgerton e Ruth Negga, eles estão absolutamente impecáveis em suas interpretações. Negga sempre rouba a cena em toda produção em que dá as caras, mas aqui, é Edgerton quem se sobressai, simplesmente desaparecendo no personagem. A mão firme do diretor é sentida na entrega do elenco, cujas atuações inserem profundidade e textura na produção, onde também se destacam Marton Csokas e Nick Kroll, em papéis menores mas de vital importância no contexto da história. Ah, e é claro que o sensacional Michael Shannon também faz uma pequena participação. Aqui, ele interpreta um fotógrafo da revista Life, que é contratado pelo advogado do casal para registrar alguns momentos de sua convivência. A maneira com que Nichols utiliza o personagem em uma pequena cena no terço final do filme, é de uma delicadeza surreal.


Ambientada em um momento delicadíssimo da história norte-americana, LOVING é extremamente relevante. Principalmente porque o roteiro é do próprio diretor. Em nenhum momento a produção força o choro fácil, mesmo com todas as dificuldades enfrentadas pelo casal e retratadas no filme. Isso também é decorrência da própria força do casal, que apesar do medo sempre inerente de que algo poderia destruir sua relação, nunca se entregou e lutou até o fim, cada um à sua maneira, mas sempre, e inexoravelmente juntos. Foi graças à resiliência e caráter dos Loving, que finalmente, depois de muito tempo de uma política absurda e covarde inserida na constituição americana, a proibição do casamento baseado em raça foi abolida. O tom do filme é algo lindo, gera metáforas fabulosas mas sempre com uma verdade impressionante. Exibido no Festival de Cannes de 2016, o filme possui alma e muita verdade também ao falar dos obstáculos que ambos precisam enfrentar por conta de seu casamento, numa época de muito preconceito em boa parte dos Estados Unidos. Belíssimo e inesquecível!!! Obrigatório e magnífico!!!

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

CAPITÃO FANTÁSTICO (Captain Fantastic) EUA, 2016 – Direção Matt Ross – elenco: Viggo Mortensen, George MacKay, Nicholas Hamilton, Samantha Isler, Annalise Basso, Shree Crooks, Charlie Shotwell, Kathryn Hahn, Trin Miller, Steve Zahn, Elijah Stevenson, Frank Langella, Teddy Van Ee, Erin Moriarty, Ann Dowd – 117 minutos

          ELE OS PREPAROU PARA TUDO, EXCETO PARA O MUNDO REAL!!


Este grande filme, de forma leve e divertida, coloca em pauta a possibilidade de viver isolado do resto do mundo, em condições primitivas e tendo como regras o amor acima de tudo. Exibido na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes 2016, “Capitão Fantástico” tem muitas referências de “Pequena Miss Sunshine” (2006) e “Na Natureza Selvagem” (2007). O filme conta a história de dois pais que, preocupados com o rumo do mundo, decidem se isolar no meio do mato. Isolados da vida urbana, eles criam seis filhos, ensinando noções de liberdade e direitos civis, além de técnicas de sobrevivência na selva. Até as crianças mais novas aprendem a lidar com armas. É uma família encantadora, que funciona principalmente por causa do seu elenco fabuloso liderado por Viggo Mortensen. Ele vive o capitão do título (no papel de Ben), o chefe da família, um cara de ideias fortes e que ama seus filhos. As crianças estão todas bem e o filme realmente consegue passar a ideia de que estamos diante de uma família. Viggo Mortensen concorreu no Globo de Ouro na categoria melhor ator de drama. Seu nome apareceu nos indicados ao Oscar 2017 esta semana também na categoria de melhor ator.

Na equipe que compõe os filhos estão Nicholas Hamilton (Rellian), Shree Crooks (Zaja), Charlie Shotwell (Nai), George Mackay (Bo), Samantha Isler (Kielyr) e Annalise Basso (Vespyr), todos em grandes atuações e dignas de destaque. Suas evoluções, crises e anseios são sempre muito bem acentuados e a organicidade em tela com o experiente Viggo Mortensen consolida uma experiência fluida. A sua performance faz ameaça parecer vulnerabilidade, transforma vulnerabilidade em confissão e não deixa o filme se tornar uma obra sentimentalista. Ben é o tutor de seis filhos a partir de uma metodologia que deveria ser adotada em larga escala: enquanto se vale de George Eliot, Dostoiévski e Karl Marx para ensinar valores essenciais às crianças e adolescentes – que citam os autores com brilhantismo – ele ainda os prepara fisicamente com técnicas de autodefesa, corridas pelas montanhas, escalada e outros esportes. Ao invés do Natal, eles celebram o aniversário de Noam Chomsky, afinal, para eles é mais lógico festejar o nascimento de alguém real e que proporcionou pensamentos e mudanças práticas para a sociedade da qual fazem parte. Tudo parece muito ideal, até o filho mais velho matar um veado com apenas uma faca e ele presentear os demais com outras armas como esta. Este grande filme é uma versão com lente de aumento para o dilema de pais e mães que lutam com suas escolhas todos os dias em que, espera-se, o amor pelos filhos prevalece. 

"Capitão Fantástico" leva o faz de conta ao extremo, apresentando fantasia como se fosse realidade e evitando os aspectos práticos da vida social em prol de uma "filosofia hippie" apresentada como uma resposta a todos os problemas da nossa sociedade. O roteiro do também diretor Matt Ross é inteligente, questionador, divertido e brilhante ao retratar uma verdadeira família que busca um mundo diferente do que vivemos, sem ódio ou imposição, tudo em nome da paz e do amor. Ainda que tenha sua identidade muito bem caracterizada é impossível não lembrar do já citado acima e belíssimo “Na Natureza Selvagem”, por exemplo, pela forma em que é mostrada a busca pela liberdade dos padrões pré-estabelecidos pela sociedade em que vivemos. O diretor ainda que não disfarce seu lado ao narrar a história, deixa que o espectador decida se apoia ou não a escolha da família em viver isolados da civilização, tanto é que o embate entre os primos que tem educações distintas é de uma força provocadora arrepiante, e o mais interessante sem nunca perder o humor. “Capitão Fantástico” funciona como comédia, como drama e ainda oferece um momento musical encantador, ao som de "Sweet Child O' Mine". São vários filmes dentro de um só, com direito até a cenas de road movie. Maravilhoso e encantador!!! 

domingo, 22 de janeiro de 2017

SETE HOMENS E UM DESTINO (The Magnificent Seven) EUA, 2016 – Direção Antoine Fuqua – elenco: Denzel Washington, Chris Pratt, Ethan Hawke, Vincent D’Onofrio, Byung-hun Lee, Manuel Garcia-Rulfo, Martin Sensmeier, Haley Bennett, Peter Sarsgaard, Luke Grimes, Matt Borner, Jonathan Joss – 130 minutos

        UMA CAPRICHADA RELEITURA  DO GRANDE CLÁSSICO DO WESTERN


Em tempos de "inclusão" e "diversidade", o novo filme de Antoine Fuqua (em impecável direção) traz quatro tipos (numericamente superiores) não-caucasianos entre os sete do título, sendo um oriental (Byung-hun Lee), um descendente de indígenas (Martin Sensmeier) e um latino (Manuel Garcia-Rulfo), todos sob a tutela de um negro, Sam Chisolm (Denzel Washington). Lançado em 1960, Sete Homens e um Destino (The Magnificent Seven) transportou para o Velho Oeste a essência da trama do grande clássico japonês Os Sete Samurais (1954), dirigido por Akira Kurosawa. A nova versão é baseada em ambos os clássicos, que também já ganharam uma releitura infantil em 1998 com a animação Vida de Inseto. Trata-se basicamente da história de uma vila de camponeses que solicita a ajuda de um grupo de forasteiros para lutar contra a opressão de invasores. Diferente do clássico dos anos 1960, dessa vez, não são os mexicanos que sofrem com os ataques do vilão ganancioso (papel assumido aqui por Peter Sarsgaard), mas americanos natos. E quem tem coragem de fazer algo e dar início ao recrutamento da trupe para defender a vila é uma mulher, a personagem de Haley Bennett, que, diferente das donzelas do gênero, põe a mão na massa, ou melhor, nas armas.


O filme é uma releitura caprichada do já citado faroeste clássico homônimo dos anos 1960. No lugar de Yul Brynner, Denzel Washington, no de Steve McQueen, o carismático Chris Pratt, no de Charles Bronson, Ethan Hawke. Nesta nova versão saem os mexicanos malvados e entra um barão corporativo americano capitalista até a medula (Peter Sarsgaard). Ele oprime os mineiros da cidadezinha de Rose Creek. O filme original fantasiava a realidade, criando um universo mítico. Uma terra de Marlboro, onde até os proscritos tinham lá suas virtudes. As atuações soberbas, o vigor do diretor John Sturges para construir as cenas de ação e a trilha de Elmer Bernstein eram as razões que tornaram o filme um clássico.  Os roteiristas Nick Pizzolatto e Richard Wenk optam por uma abordagem pé no chão. Ninguém em cena é inocente. O caçador de recompensas vivido por Denzel Washington, organiza a resistência não porque ficou sensibilizado com o drama dos mineiros, mas porque é conveniente: ele já estava atrás do barão. Na versão antiga, os sete homens se interessavam pelo dinheiro, mas gradualmente a recompensa se revelava fútil, e eles acabam aderindo à causa. Não há ideologia no novo filme. Estamos num mundo de individualistas e cada um tem seu propósito pessoal para se juntar ao grupo. 


É um filme brilhante e tem como um de seus maiores trunfos o fato de respeitar a essência dos faroestes produzidos no período clássico, porém com um diferencial: a utilização de doses exatas de humor como artifício para aproximar a plateia atual, que não tem como hábito o consumo de filmes deste gênero. E parte deste alívio cômico em meio a tanta violência vem do personagem de Chris Pratt, bastante à vontade como o anti-herói Josh Faraday. Na verdade, Pratt não é o único ator a demonstrar conforto em cena, pois todo o elenco oferece ótimos desempenhos, deixando nítido ao espectador seu total entrosamento. Contudo, os grandes destaques são Denzel Washington e Ethan Hawke (Goodnight Robicheaux), que já trabalharam com o diretor em “Dia de Treinamento” (Training Day – 2001). Enquanto Washington se destaca como um cawbói clássico, o anti-herói sério e destemido, Hawke equilibra fragilidade e insanidade com precisão. É formidável a forma como é composta a movimentação dos atores criando um jogo cênico, que explora muito bem a profundidade de campo e o extracampo. E eis uma raridade: um filme de ação, em que a palavra nunca é menosprezada. Sente-se a densidade dos diálogos e as construções subitamente acidentadas que revelam verdades mais complexas. Os diferenciais da produção de 2016 são uma ênfase na diversidade étnica e uma mensagem anticapitalista, além de um número de tiros por minuto bem acima da média geral. Baseado em um material consagrado e ambientado no século 19, “Sete Homens e Um Destino” não arrisca ousadias, não força a barra para ser moderno e mantém-se como um filme heroico, essencialmente tradicional, sem ostentação, por exemplo, nos efeitos especiais digitais. Apesar da violência, o filme busca a elegância e não se rende à influência de nada e nem de ninguém. A marcante música-tema do original de 1960 é resgatada nos créditos finais. Espetacular e eletrizante, merece ser visto e revisto nos cinemas!!! Diversão de primeira!!!


sábado, 21 de janeiro de 2017

KUBO E AS CORDAS MÁGICAS (Kubo and the Two Strings) EUA, 2016 – Direção Travis Knight – Com as vozes de Charlize Theron, Art Parkinson, Ralph Fiennes, Matthew McConaughey, Rooney Mara, Brenda Vaccaro, Cary-Hiroyuki Tagawa, Meyrick Murphy, George Takei, Ken Takemoto, Luke Donaldson – 101 minutos 

         EXCELENTE ANIMAÇÃO COM QUESTÕES PROFUNDAS E HUMOR SOTURNO


Kubo e as Cordas Mágicas transporta o espectador para a mitologia oriental, marcada pela relação íntima com a natureza e com a morte. Esta trama representa ao mesmo tempo uma fábula familiar e um épico de aventura, através dos desafios do garoto Kubo, que perdeu um olho quando bebê, perdeu o pai na mesma época e deve sustentar a casa, já que a mãe sofre de depressão. O filme também aposta na figura de uma criança predestinada que, mesmo sem o traquejo social de outros garotos de sua idade – e talvez justamente por isso – apresenta uma interpretação excepcional do mundo ao redor. O breve prólogo, contado pelo próprio protagonista, dá a dimensão do que está por vir: uma mulher enfrenta o mar durante uma tempestade assustadora. Consegue passar pelas águas ao tocar um acorde mágico no shamisen, espécie de guitarra nipônica com três cordas. Trata-se da mãe de Kubo, que fugiu após um acesso de fúria de seu pai, o Rei Lua, que arrancou um olho do bebê. A dupla se abriga em uma ilha fictícia, ambientada em um Japão fantástico. 


Repleto de detalhes, cores e texturas que ultrapassam sua técnica base, o filme de Travis Knight é um épico, só que representado por bonecos. Essa atmosfera se estabelece ainda mais graças à delicada trilha sonora de Dario Marianelli (compositor dos temas de “V de Vingança” e “Anna Karenina”).Partindo de um universo cheio de referências orientais, com códigos rígidos de honra e moral, onde fantasia e realidade convivem lado a lado, ele conseguiu elaborar um conto surpreendente, tanto pela trama que conduz, repleta de reviravoltas e subcamadas de leitura, como também pelo visual, que chega a ser inebriante pela beleza que carrega. Com belíssimos efeitos especiais que somente um stop-motion muito bem feito pode proporcionar, “Kubo e as Cordas Mágicas” é uma animação cheia de ação e aventura que possui elementos tanto para as crianças quanto para os adultos. Seu estilo mais sombrio, como em todos os longas-metragens do Estúdio Laika (em especial, “Coraline e o Mundo Secreto”), é ousado para uma animação inicialmente voltada para os pequenos, e a riqueza de detalhes do stop-motion em cores vibrantes é o destaque do filme. 


quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

BILLY ELLIOTT (Billy Elliott) EUA, 2000 – Direção de Stephen Daldry – elenco: Jamie Bell, Julie Walters, Jean Heywood, Jamie Draven, Gary Lewis, Stuart Wells, Nicola Blackwell, Adam Cooper, Mike Elliot, Merryn Owen – 110 minutos

UMA OBRA-PRIMA QUE É UM TRIUNFO E UMA ESTÉTICA PRIMOROSA


Esta é a comovente história de um menino de família de classe média que descobre uma paixão que irá mudar para sempre a sua vida. Billy Elliott tem 11 anos de idade, tem que tomar conta da avó senil, é filho de um mineiro (que está participando de um protesto em favor da greve nas minas de carvão), está indo para sua aula de lutador de boxe, quando passa por uma escola de ballett. Em segredo, ele começa a freqüentar essas aulas, sabendo que sua família operária nunca vai aceitar. Sob a orientação de sua professora, a Sra. Wilkinson (Julie Walters), o talento em estado bruto de Billy desabrocha. Um dia o pai descobre a ambição do seu filho. A partir de então Billy vai precisar lutar muito por seus sonhos e por seu destino.  Ele terá de enfrentar o preconceito da família pobre e ignorante sobre uma arte tão restrita às mulheres, muito associada à homossexualidade e elitista; e também com o enfurecimento daqueles que não acreditam que um filho de operário possa ter talento para as artes. Billy é obrigado a decidir entre desenvolver o seu talento ou honrar sua herança e se tornar mineiro. 


O filme tem seqüências memoráveis e sensíveis, como aquela em que Billy começa a descobrir sua sexualidade com um amiguinho sutilmente efeminado e que na intimidade adora se maquiar e se vestir de mulher. É uma notável experiência no processo crescente de derrubar barreiras. Toda a história é passada nos anos 1980, em Durham County, cidade do nordeste da Inglaterra.  O elenco está primoroso, além de Julie Walters, já citada acima, destaque para Gary Lewis, que faz o pai severo do menino; e, claro, na exuberante atuação de Jamie Bell, que interpreta o próprio Billy, que, com um único olhar, consegue o equilíbrio perfeito entre angústia, emoção e liberdade. Jamie Bell foi escolhido entre outros dois mil meninos.    Ele consegue apresentar uma expressão tão natural como quem já nasceu assustado com o mundo, como quem já sabia de tudo e de tudo que iria enfrentar. É uma atuação de inigualável brilho. 


O personagem foi inspirado na infância do próprio roteirista Lee Hall, que vivenciou a greve dos mineiros entre 1984 e 1985. Em entrevista ele disse: “Queria escrever isso de maneira objetiva, observando os diferentes focos de tensão na comunidade, o que seria vital para determinar o fracasso da greve. Mas a história meio que se escreveu sozinha, uma vez que eu defini a imagem do garoto encrencado com sua família, sua comunidade e jogado contra um mundo maior e mais cruel”.  Quando lançado na Inglaterra foi um enorme sucesso e depois se expandiu por outros países, inclusive aqui no Brasil. O filme foi indicado em várias categorias para o Globo de Ouro e recebeu três indicações ao Oscar 2001: Melhor Diretor (Stephen Daldry, em seu primeiro longa-metragem); Melhor Atriz Coadjuvante (merecida indicação de Julie Walters em brilhante performance) e Melhor Roteiro Original. Injustamente não foi indicado a Melhor Filme.  O filme é um triunfo, com uma história igualmente triunfante de um menino que procura superar seus limites num mundo hostil para seguir o desejo do seu coração. Um dos melhores filmes do ano! Consegue conciliar conflitos sociais e estética primorosa. Absolutamente belo e extremamente contemporâneo!

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

CIRCULO DE FOGO (Enemy at the Gates) EUA, Inglaterra, Irlanda  Alemanha, 2001 – Direção de Jean-Jacques Annaud – elenco: Jude Law, Joseph Fiennes, Ed Harris, Rachel Weisz, Bob Hoskins, Ron Perlman, Eva Mattes, Gabriel Thomson, Matthias Habich, Sophie Rois, Ivan Shvedoff, Mario Bandi, Hans Martin Stier – 131 minutos

      UMA PÁGINA TRÁGICA DA HISTÓRIA NUM FILME IMPERDÍVEL!!! 


É o mais triunfante filme de guerra desde O RESGATE DO SOLDADO RYAN (1998). O diretor Jean-Jacques Annaud tem poucos filmes em seu currículo, mas é um dos mais respeitados do cinema atual. Basta citar algumas de suas obras-primas: A GUERRA DO FOGO (1981), O NOME DA ROSA (1986), SETE ANOS NO TIBET (1997); PRETO E BRANCO EM CORES (1976); O URSO (1988) etc. É uma história impressionante durante o cerco a Stalingrado, na Segunda Guerra Mundial. Stalingrado era uma conquista fundamental para o total domínio nazista na Europa. Se tomassem a cidade russa, os alemães chegariam facilmente às reservas de petróleo caucasianas que tanto lhes interessavam e alcançariam rapidamente as outras regiões do país usando o rio Volga para o transporte das tropas. 


O filme não é apenas sobre esse aspecto histórico da guerra, é também sobre propaganda e motivação, a partir de fatos reais. É também uma verdadeira aula política e militarista. O roteiro caprichado nos conta a história em que um despreparado Nikita Krushchev (uma interpretação inspirada de Bob Hoskins) assume o exército russo para assegurar que as tropas de Adolf Hitler não triunfem. Um dos oficiais políticos, Danilov (o excelente Joseph Fiennes), tem a idéia astuta de dar ao desanimado povo russo uma inspiração heróica. Vassily Zaitsev (brilhante atuação do extraordinário Jude Law) é um soldado de visão milimetricamente apurada na infância, graças às caçadas a lobos empreendidas pelo avô. Na verdade, ele é um atirador de elite, que vira um símbolo para levantar o moral do povo russo graças ao trabalho de imprensa de Danilov. O letrado Danilov pensa e, sem instrução, Vassily executa. A parceria funciona e o atirador se orgulha ao ver seus feitos estampando as páginas dos jornais, enquanto o oficial usufrui dos luxos do alto escalão comunista. A união fica ameaçada quando os dois são atraídos pela jovem Tânya (Rachel Weisz, que está ótima). 


O clímax do filme é quando a precisão de Vassily é posta à prova pelo reverenciado major nazista Konig (magnífico desempenho de Ed Harris), um dos melhores atiradores enviados pela Alemanha, para matar Vassily. O lendário atirador terá que caçá-lo desesperadamente. Começa então uma guerra particular de coragem, honra e patriotismo. Dividida entre a experiência e a esperteza, essa brincadeira macabra de gato e rato cria uma tensão angustiante e de grande suspense para o espectador. O filme é ainda notável por apresentar cenas de impressionante beleza e impacto. Na época do seu lançamento se questionou muito o título brasileiro, considerado absurdo, porque a tradução literal seria INIMIGO À PORTA, que aliás tem mais a ver com toda a história. A fotografia inspiradíssima do consagrado Robert Fraisse, transformou a história em pinceladas impressionistas em cores frias, borradas apenas pelo vermelho do sangue e da bandeira comunista. Um filme de heroísmo, retratando um período negro do Século XX, no ano de 1942, à porta de Stalingrado, num dos confrontos mais sangrentos da Segunda Guerra Mundial. Uma página trágica da história num filme belo, honesto e imperdível!!!



sábado, 14 de janeiro de 2017

ASSASSIN’S CREED (Assassin’s Creed) Inglaterra / França / Hong Kong / EUA, 2016 – Direção Justin Kurzel – elenco: Michael Fassbender, Marion Cotillard, Jeremy Irons, Brendan Gleeson, Charlotte Rampling, Michael Kenneth Williams, Callum Turner, Denis Ménochet, Khalid Abdalla, Ariane Labed – 115 minutos

                                MICHAEL FASSBENDER INTENSO, CÍNICO E VIOLENTO


Tive a oportunidade de ver “Assassin’s Creed” (2016), o tipo de game que nasceu para chegar aos cinemas. Observo que a Crítica em geral está fazendo muitas críticas negativas, mas o filme tem seu mérito sim. A iniciativa partiu da Ubisoft e chegou a Michael Fassbender, astro de Hollywood que, além de protagonizar, produz o primeiro filme da franquia. Ao lado dele, na cadeira de diretor, está Justin Kurzel, com quem trabalhou junto no mais novo “MacBeth” (2015). A parceria novamente dá certo e consegue finalmente adaptar um game para a telona com dignidade. Michael Fassbender, intenso, cínico, violento, carrega literalmente o filme neste papel de cobaia e de assassino. Ele prova que não existe escolha melhor do que um ator cerebral para tornar apaixonante uma máquina de matar. O diretor Justin Kurzel, acerta nas empolgantes cenas de ação e em saber explorar o talento do seu ator protagonista e com isso acaba por deixar o filme envolvente do começo ao fim. 


Mas é inegável que o exagero no uso de uma fumaça ou talvez neblina em quase todo filme não deixa as cenas tão claras e impactante como poderia. No entanto, quando é mostrado o personagem Callum ligado à máquina Animus e podemos vê-lo em ação no passado é deslumbrante o resultado alcançado com os efeitos visuais.Assassin’s Creed” acerta como um produto de ação e entretenimento e também por conseguir de forma digna apresentar a ideia central do jogo na telona. De todos os conceitos apresentados pelo filme, existe um que chama muito a atenção, é do Credo dos Assassinos, que vivem para proteger o livre-arbítrio da Humanidade - o que no fim das contas torna a aventura envolvente. Apesar do roteiro errar nas explicações exageradas sobre templários e a Maçã, na hora de apresentar os assassinos e construir a personalidade deles tudo se encaixa. O diretor elimina quase todas as falas e deixa a imagem montar o caráter de cada um dos personagens. Com tomadas aéreas belíssimas, Kurzel monta um ambiente com cara de sonho, com quadros embaçados e movimentos rápidos. As lutas, que têm um ritmo lento mas que valorizam os golpes, lembram os games e impressionam pela brutalidade sem violência - os socos são pesados, as quedas são tensas, mas sem muito sangue. Uma produção esmerada e no todo bem realizada. Merece ser conferida!!! 



quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

O LOBO DO DESERTO (Theeb)  Jordânia / Qatar, 2014 – Direção Naji Abu Nowar – elenco: Jacir Eid Al-Hwietat, Hussein Salameh Al-Sweilhiyeen, Hisham Ahmand, Jack Fox, Hassan Mutlag Al-Maraiyeh, Ali Al-Awaisheh, Yaseer Al-Braji, Taha Ahmad Al-Radaideh, Saif Hamdan Al-Udwan, Mohammad Al-Ugaily, Safa Alazarat, Hmood Ali – 100 minutos

             UMA BELÍSSIMA CRUZADA SOLITÁRIA MOVIDA POR VINGANÇA!!! 


O primeiro aspecto que chama a atenção neste filme jordaniano é sua produção grandiosa. Para contar a aventura do garoto Theeb através dos perigosos desertos do país, o diretor estreante Naji Abu Nowar apresenta imagens cuidadosamente compostas, com um trabalho de câmera excepcional e uma montagem refinada, digna dos grandes trabalhos de estúdio. Não é de se espantar que tenha sido indicado na categoria de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2016. Desde seu lançamento, “Lawrence da Arábia” (1962) se tornou a referência absoluta para filmes sobre a vida no deserto. A relação estabelecida entre qualquer obra com esta ambientação e o clássico de David Lean é imediata, e com “O Lobo do Deserto” não é diferente. Esse primeiro filme do cineasta Naji Abu Nowar, britânico de ascendência jordaniana, possui ecos da cinebiografia de Thomas Edward Lawrence, que vão desde locações até a presença de um soldado inglês na trama. Mas diferente do escopo magnificente de “Lawrence da Arábia”, um épico por excelência, o trabalho de Nowar se utiliza das grandiosas paisagens desérticas para narrar uma história mais intimista, nos moldes do conto de formação. 


"O Lobo do Deserto" narra, a partir da perspectiva ingênua de Theeb, o contexto de eventos políticos que definiram o Oriente Médio nas décadas seguintes, o mesmo período, aliás, do já citado épico "Lawrence da Arábia". A história ocorre simultaneamente à Revolta Árabe (1916-1918), quando nacionalistas árabes lutaram contra o Império Otomano pela independência dessa região. Essas batalhas estão inseridas no âmbito da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Mas, enquanto em "Lawrence da Arábia" o protagonista era uma peça estratégica, e interessada nos eventos políticos, em "O Lobo do Deserto" o jovem Theeb é um beduíno mais preocupado com seus laços familiares e suas tradições. 


O ponto de partida é simples e diretor o desenvolve com muita segurança, apostando na economia de diálogos e explicações. Seu filme se faz entender pelas imagens e pela criação de atmosferas, que transitam por diversos gêneros. Em seu primeiro ato, o longa busca inspiração nos westerns de emboscada, quando Nowar faz com que, mesmo com a amplidão do cenário, sua narrativa se torne sufocante. Os caminhos estreitos entre as rochas, o poço abandonado, os sons que vêm do alto dos penhascos, são todos signos familiares aos westerns filmados em Monument Valley por John Ford, por exemplo, e que o filme utiliza de maneira exemplar para criar um clima crescente de suspense e tensão latente. Indicado à categoria de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2016, o representante da Jordânia apresenta uma trama de caráter universal sobre a necessidade compulsória de amadurecimento de uma criança, o pequeno Theeb (Jacir Eid Al-Hwietat), cujo nome significa “lobo”. Sob o olhar atento de Theeb, acompanhamos a trama que se passa em 1916, período da Primeira Guerra Mundial, no Império Otomano, onde uma tribo beduína, liderada pelo irmão mais velho do menino após a morte dos pais, recebe a visita de um oficial do Exército Britânico (Jack Fox) e seu tradutor com o pedido de que sejam guiados até um poço no meio do deserto. Hussein (Hussein Salameh Al-Sweilhiyeen), o irmão do meio, acompanha os dois até o local, sem perceber que o curioso irmão caçula os seguia. O que inicialmente era uma aventura para Theeb torna-se uma perigosa empreitada pela sobrevivência num cenário mais inóspito e violento do que ele imaginava. Uma obra imortal, atemporal e universal!!!



quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

AS DUAS FACES DA FELICIDADE (Le Bonheur) França, 1965 – Direção Agnès Varda – elenco: Jean-Claude Druout, Claire Druout, Marie-France Boyer, Olivier Druout, Sandrine Druout – 80 minutos.

QUANDO AMAMOS DUAS PESSOAS, PODEMOS TER A  FELICIDADE??



Um belíssimo filme questiona o que é ser feliz, e o que nos faz feliz. Um homem casado (e pai), pequeno burguês perfeito, se envolve com outra mulher, mas ele não quer abandonar a esposa. Quer as duas. A impossibilidade de tê-las, lança uma nuvem sobre a tal felicidade. Sem discursos existenciais explícitos ou afetações comportamentais, a cineasta Agnès Varda está no auge de toda imbricação estética e ideológica que sempre se apresentou em sua carreira. Comprar a idéia ou não da teoria que se apresenta, fica a critério de cada um. O que Varda possibilita é a reflexão sobre posturas e comportamentos, provocando o pensamento não-limitado a situações cotidianas. É um dos filmes mais estáveis na obra da diretora e também dos mais virtuosos e de esmero estilístico. A imagem fala muito sobre si mesma, imagem esta carregada de beleza e minuciosamente construída. Ela é criada de forma a revelar-se distante de qualquer exatidão, assim como a exatidão está longe de qualquer filme da obra de Varda.  Características conflitantes se cruzam, gerando um filme que se utiliza de sua própria plasticidade para produzir uma tensão interna latente e, conseqüentemente, para o espectador. Tamanha é a harmonia na composição gráfica dos espaços, nas cores, nas relações, nos rostos, nos gestos. A complexidade, aí, se dá na corporificação de uma harmonia que extrapola. Um fantástico espetáculo para os olhos, repleto e lotado de tomadas que parecem quadros, pinturas e belas obras de arte!! Um pequeno grande filme, raro e inesquecível, que merece ser redescoberto!!!


domingo, 8 de janeiro de 2017

ALEXANDRE, O FELIZARDO (Alexandre, Le Bienheureux) França, 1968 – Direção Yves Robert – elenco: Philippe Noiret, Marlène Jobert, Françoise Brion, Paul Le Person, Jean Carmet, Pierre Richard, Tsilla Chelton, Jean Saudray e o cão Kaly – 100 min

     QUEM ESTÁ COM A RAZÃO?? A MULHER, OS AMIGOS, O CÃO OU A SOCIEDADE???


Depois de “Os Russos Estão Chegando! Os Russos Estão Chegando!” (1966); “Esse Mundo é dos Loucos” (1966); “Pequena Miss Sunshine” (2005); e algumas outras poucas mas grandes comédias, chegou a vez de conhecer “Alexandre, O Felizardo” - Comédia com toques de ingenuidade e fantasia sobre as peripécias de um simplório agricultor que encara a vida de uma maneira muito peculiar e nisso é auxiliado por seu cão de estimação. O diretor é Yves Robert, o realizador dos inesquecíveis “A Guerra dos Botões” (1962); “O Castelo de Minha Mãe (1990); “A Glória de Meu Pai (1990) etc. Destaque no elenco feminino para Marlène Jobert, que brilhou no excelente “O Passageiro da Chuva” (Le Passager de La Pluie, 1970), de René Clément e Françoise Brion, de “Os Sóis da Ilha de Páscoa (1972 – com Norma Bengell). 

“Alexandre, O Felizardo” é um filme detentor dos maiores recordes: 40 semanas em Paris, 38 em Roma, 38 em Nova York, 32 em Bruxelas e bateu todos os recordes em todas as capitais onde foi exibido. O público de todas as idades comentou, discutiu e adorou esta verdadeira obra-prima no difícil gênero da comédia. Um filme capaz de reunir a comicidade, a sátira, o mais fino humor e o mais profundo sentido humano. Uma coisa boa nessa película, como é um filme antigo não tem tantos clichês como hoje em dia, nem tanto apelo para piadas sem graça.  
A todos que não viram ou os que já conhecem, merece conhecer ou uma revisão desta comédia francesa bem leve, sem temática alguma complicada ou filosofia mais intensa, se arriscando apenas em falar um pouco sobre as consequências da liberdade, e a escravidão (aqui um pouco exagerada) que pode se tornar um casamento. A história de um fazendeiro bonachão e sonhador que após trabalhar anos feito um cão, sob as ordens da esposa controladora, enviúva e passa só a fazer o que quer. Passa dois meses na cama, enquanto seu cachorrinho vai às compras por ele. Um comportamento que vai contra a mentalidade de trabalho reinante na cidade e que por isso causará espanto e a reação contrária dos moradores. Mas Alexandre só queria viver!!! 
 


sábado, 7 de janeiro de 2017

ANIMAIS NOTURNOS (Nocturnal Animals) EUA, 2016 – Direção Tom Ford – elenco: Amy Adams, Jake Gyllenhaal, Michael Shannon, Aaron Taylor-Johnson, Isla Fisher, Ellie Bamber, Armie Hammer, Karl Glusman, Robert Aramayo, Laura Linney, Andrea Riseborough, India Menuez, Michael Sheen, Imogen Waterhouse, Franco Vega – 114 minutos

          QUANDO VOCÊ AMA ALGUÉM, NÃO DEVE POR TUDO A PERDER 


Este é um filme sobre artistas e aspirantes a desistências e arrependimentos; sobre amores passados que, vistos sob a luz de dores no presente, começam a soar como oportunidades perdidas ou como boias salva-vidas quando, na realidade, provavelmente gerariam sua própria parcela de problemas caso resgatados. Assim, quando Susan Morrow (Amy Adams), uma dona de galeria casada com um sujeito bonito e bem-sucedido (Armie Hammer), começa a questionar o vazio que a cerca, é apenas natural que se sinta balançada ao receber um manuscrito enviado pelo ex-marido Edward (Jake Gyllenhaal), que, como se não bastasse, dedica o livro a ela. Enquanto lida com os problemas de seu cotidiano, Susan lê a história concebida pelo ex, que gira em torno de uma família (Gyllenhaal, Isla Fisher e Ellie Bamber) confrontada numa estrada deserta, à noite, por três jovens violentos (Aaron Taylor-Johnson, Karl Glusman e Robert Aramayo). 


Já nas primeiras cenas, o espectador é colocado diante de um impacto que prosseguirá entrelaçando diferentes sensações no decorrer da trama. Mulheres morbidamente obesas dançam como go-go girls de um bizarro show de horrores. O aparentemente grotesco, porém, surpreende o olhar transformando-se em belo. Isso é o poder da arte. Esse é o cinema de Tom Ford, que já tem uma carreira estabilizada no mundo da moda e em 2009 se aventurou também nas telonas com “Direito de Amar”, drama LGBT que gira em torno de um professor que decide tirar a própria vida após a trágica morte de seu companheiro. A estreia do diretor foi bastante aclamada pela crítica e rendeu a Colin Firth sua primeira indicação ao Oscar. Agora, ele retorna ao posto de diretor com este tenso suspense psicológico “Animais Noturnos”.  O roteiro adaptado da obra “Tony and Susan”, de Austin Wright, por Tom Ford é um exercício muito complexo e inteligente sobre perdas e traumas que alimentam nossa mente mesmo muito tempo depois de acontecidos. E ainda uma clara crítica à burguesia norte-americana que respira o capitalismo mesmo quando o assunto é o sentimento.


A direção de Tom Ford é excelente, pela elegância em que conduz a trama e pelo uso da estética a favor da narrativa, mas principalmente por conseguir hipnotizar o espectador para a história contada, rapidamente você é tomado (a) pela narrativa e isso vai até o fim, sem nunca perder o ritmo. A montagem (incrível) teve papel fundamental para tal resultado, ainda mais por se tratar de um filme que se passa em 3 camadas. A história dentro da história faz do filme algo muito envolvente. Um thriller psicológico construído com um convincente clima de tensão. Para completar, o segmento ainda conta com uma boa performance de Aaron Taylor-Johnson, um excelente trabalho de Michael Shannon, a genial atuação de Laura Linney como a mãe de Susan e uma performance extraordinária de Jake Gyllenhaal, digna de uma indicação ao Oscar 2017. É uma história de vingança - revenge, como no quadro pendurado na parede da galeria de Susan. Mas é a vingança de Jake Gyllenhaal como o marido da ficção ou o ex de Amy na realidade? 


São  personagens que arrastam pelas sombras da infelicidade o peso de decisões que, por pressão, impulso, medo ou a corajosa autoconfiança da juventude, mostram-se irreversíveis a horas tantas da vida. Tentar retomar o passo pode abrir a esperança de redenção da culpa ou o alçapão para mergulhar no precipício. Tom Ford carrega o espectador junto numa densa imersão em que drama, violência e suspense são costurados com incomum habilidade. É justa sua dupla indicação ao Globo de Ouro, em janeiro, como melhor diretor e roteirista — Aaron Taylor-Johnson concorre como ator coadjuvante. É um filme denso, melancólico, perturbador, mas de uma beleza estética e assombrosa reflexão!!


quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

LIFE – UM RETRATO DE JAMES DEAN (Life) Inglaterra / EUA / Alemanha / Canadá / Austrália, 2015 – Direção Anton Corbijn – elenco: Robert Pattinson, Dane DeHaan, Peter Lucas, Lauren Gallagher, Ben Kingsley, Kendal Rae, Drew Leger, Alessandra Mastronardi, John Blackwood, Jason Blicker, Joel Edgerton, Emily Hurson, Kristian Bruun, Allison Brennan, Anton Corbijn, Michael Therriault, Caitlin Stewart, Nicholas Rice – 111 minutos

            A FACE MENOS REBELDE E MAIS ANGUSTIADA DE JAMES DEAN 


O filme retrata os breves meses em que James Dean (uma bela interpretação de Dane DeHaan) se preparava para atingir a fama, em meados de 1954 e 1955. Havia feito somente um filme, “Vidas Amargas”, de Elia Kazan. Estava em vias de estrelar outro, “Juventude Transviada” - mas o papel ainda não era seu. Quem o encontra neste limbo é justamente Dennis Stock (Robert Pattinson), um fotógrafo jovem que também luta por reconhecimento. Ele enxerga logo em Dean uma possibilidade de astro e quer fazer um ensaio fotográfico com ele. Encontra resistência não só junto aos seus próprios chefes, na agência Magnum, como no próprio ator – um objeto difícil de entregar-se às lentes, diante das quais ele emana uma luz própria magnífica e melancólica. A escolha de levar este episódio ao cinema é no mínimo ousada. O diretor Anton Corbijn poderia ter escolhido momentos mais “espetaculares”, como a morte prematura do ator ou sua relação turbulenta com as mulheres. Ao invés disso, preferiu os pequenos momentos íntimos, o tédio dos bastidores, a melancolia na vida de um ator que nunca se acostumou ao sistema de estúdios. Em outras palavras, o roteiro leva às telas os “tempos mortos”, as esperas, os olhares – justamente aquilo que a maioria das cinebiografias teria descartado.


É toda essa relação que o diretor, que começou sua carreira como fotógrafo, tenta mostrar ao resgatar o breve encontro entre os dois personagens, num dos momentos mais mágicos para a fotografia do século XX. O filme mostra a jornada de Stock em Nova York, quando ele registrou as imagens mais emblemáticas do ator, e em Fairmount, lugar em que James Dean cresceu. Com uma dupla de atores em perfeita sintonia, Corbijn investe nos silêncios para transformar o cotidiano em arte, numa pegada reflexiva que exige atenção do espectador. Corbijn demonstra que ambos os personagens eram almas solitárias e faz uma analogia entre a ausência paterna na vida de Dean e a relação de Stock com seu filho. Da vida de James Dean o filme revela principalmente o apego à família, a pressão dos estúdios Warner e as dificuldades em assumir uma persona. Uma imagem um tanto diferente do rebelde sem causa eternizado com seu topete e jaqueta vermelha, que revolucionou o cinema da época justamente por ir na contramão do padrão vigente até então. Enquanto Clark Gable, John Wayne ou Kirk Douglas se impunham de forma altiva e máscula, Dean criou o galã com pose adolescente e blasé.


Cinco meses depois de realizar o ensaio fotográfico apresentado em “Life”, veio a morte trágica. O astro deixou um último filme, “Assim Caminha a Humanidade” (1956), ao lado de Elizabeth Taylor e Rock Hudson, pelo qual foi indicado ao Oscar de ator coadjuvante. Foi a primeira indicação póstuma da Academia de Artes de Hollywood. O filme acerta bastante na ambientação da década de 1950, com roupas, carros e costumes, onde se inserem os pensamentos de Dean sobre a indústria cultural, a fama e a vida. O objetivo de LIFE – UM RETRATO DE JAMES DEAN é muito claro: mostrar os pensamentos profundos e complexos de James Dean, que ficou conhecido por sua rebeldia que representava a juventude da época. Um filme sensível e lento, e de notável reflexão.